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alcmeno bastos o poeta e o bruxo: dialogismo e alusividade na poesia de Drummond
A poesia de Carlos Drummond de Andrade apresenta, desde o primeiro livro pu-blicado, Alguma poesia (1930), até o último, e póstumo, Farewell (1996), um acentuado tom dialógico. Desse recurso se vale o poeta para exprimir um ponto de vista subjetivo, isto é, o posicionamento de uma individualidade perfeitamente caracterizada em intera-ção discursiva com um outro. Contudo, tal subjetivismo, por se manifestar dialogica-mente, impede a rotulação de sua poesia como confessional, no sentido de utilização do poema como veículo de queixas pessoais. Exemplo altamente expressivo desse dialo-gismo é, sem dúvida, o “Poema de sete faces”, portal introdutório não apenas aos poe-mas do livro de estréia, mas a toda a obra poética de Drummond. Nesse poema, como é sabido, o poeta se coloca sob o vaticínio de um “anjo torto” que lhe recomenda / ordena, em discurso direto: “Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Além dessa fala inicial do “anjo torto”, nas três últimas estrofes o poeta convoca, em construções a que não falta o pro-tocolar vocativo, outros interlocutores: Deus – “Meu Deus, por que me abandonastes”; o Mundo – “Mundo mundo vasto mundo”; e um tu não identificado (“Eu não devia te dizer”), que coroa o percurso poético pelas “sete faces” do poema com intrigante ambi-güidade, pois essa segunda pessoa pode tanto ser um outro a quem o poeta se dirige quanto ele mesmo, o “Carlos” merecedor do prenúncio insolente do "anjo torto".
A estrofe seguinte é de corte
tipicamente drummondiano, no que tem de especu-lação sobre o mistério de
existir, para o qual, aliás, não haverá remédio “senão existir”, mas
conserva a informação de origem: a dubiedade irresolvível, senão a
gratuidade fundamental do crime de viver “e porventura o de amar / não se
sabe a quem, mas amar?” Mas logo na estrofe seguinte reaparece o tom
dialógico, na caracterização do anfitrião como “bruxo alusivo e
zombeteiro, / que revolves em mim tantos enigmas”, e no empréstimo
machadiano da desalentada conclusão de que “Todos os cemitérios se
parecem”. Finalmente, a última estrofe tem mesmo certo tom surreal que
contraria o realismo da figuração anterior. De súbito, a um “som remoto e
brando”, que "rompe em meio a embriões e ruínas, / eternas exéquias e
aleluias eternas, / e chega ao despistamento de teu pencenê", como que
atendendo a um chamado, de Oblivion – isto é, o esquecimento, imagem usada
por Machado nas Memórias póstumas de Brás Cubas – que "bate à porta e
chama ao espetáculo / promovido para divertir o planeta Saturno", o
anfitrião, talvez indiferente à presença do poeta-visitante, fecha a porta
à chave, e “qual novo Ariel, sem mais resposta”, sai pela janela,
dissolvendo-se no ar, deixando-o só, na sala vazia.
Não há, no poema inteiro, uma
só loa ao “bruxo” Machado de Assis. No entanto, fica patente o respeito
admirativo do poeta por essa figura na aparência tão pouco atra-ente, por
esse hospedeiro que nada faz para agradar a visita. O Machado de Assis que
pode ser observado no poema, apesar de situado na casa onde efetivamente
morou gran-de parte de sua vida – a casa do Cosme Velho –, e de algumas
indicações quanto à sua aparência física e a seus modos contidos, é antes
de tudo o Machado de Assis literário. É pela recorrência alusiva que o
leitor re-conhece Machado. Na verdade, somente o leitor familiarizado com
a obra machadiana, capaz de compreender o peso alusivo de tantas
expressões, de tantos nomes e situações que atravessam o texto, somente
esse leitor íntimo de Machado entra, na companhia do poeta, na casa do
Cosme Velho. Esse domínio do universo machadiano veda o ingresso na
intimidade do bruxo àqueles que lhe são estranhos. Drummond, portanto, não
apenas expressa sua estima por um grande vulto das letras e repassa aos
leitores esse afeto. A dicção é crispada, o leitor vê-se obri-gado a
dialogar com dois universos: o machadiano, marcado pelo meio tom, pelo
ceti-cismo altaneiro, e o universo drummondiano, envolto nas questões
fundamentais da existência humana e sem receitas simplificadoras.
ALCMENO BASTOS é ensaísta, pesquisador de narrativas brasileiras e interdisciplinaridade, autor, entre outros, de A História foi assim: o romance político brasileiro dos anos 70/80. É professor adjunto do curso de Letras da UFRJ.
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