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solange rebuzzi
Hölderlin
Johann Chistoph Friedrich
Hölderlin nasceu em 20 de março de 1770, em Lauffen, às margens do Neckar,
na Alemanha. Um de seus biógrafos lembra que, em alemão, Hölderlin, nome
medieval do diabo, significa “pequeno sabugueiro”. Na tradição de várias
regiões do país, o sabugueiro é considerado como a árvore da vida ou a
árvore onde mora o espírito do destino.
Hölderlin conviveu muito pouco com seu pai, que faleceu quando ele estava
com dois anos de idade. Sua mãe casou-se novamente, e, aos quatro anos,
ele ganhou outro pai. Mas, este também faleceu três anos depois. Aos
quatorze anos nasceram os primeiros exercícios de poesia, na escola onde
ele recebia orientação para um destino eclesiástico. Diz-se que Hölderlin
teria preferido cursar Direito, mas teve que se contentar com o estudo de
Teologia favorecido por uma bolsa dada pelo Estado.
Com aspirações intelectuais e sem recursos materiais, ele tornou-se um
seminarista que lia Rousseau e Kant mais que os seus manuais de teologia.
Contemporâneo dos filósofos Hegel (haviam entrado juntos na Universidade)
e Schelling, sua vocação poética (sob influência das leituras de Platão) o
afastou cada vez mais da fé protestante. Também amigo de Schiller e
Goethe, mas diferentemente destes, sua poesia só viria a ser reconhecida
no século XX.
Em 1790 Hölderlin obtém o diploma de professor de filosofia, e no Natal de
1793, então aos 23 anos, conclui seus estudos no Seminário de Tubingen.
Por um tempo chegou a pregar nas aldeias próximas à sua, mas logo abandona
tal ofício desejoso de realizar-se na carreira poética, em oposição ao
desejo de sua mãe que pretendia para ele uma vida pastoral.
Sua primeira colocação, como preceptor, foi obtida com a ajuda de
Schiller, a quem conheceu através de um amigo. Desde muito jovem os poemas
de Schiller o impressionavam. Mais tarde, alguns de seus poemas foram
publicados na revista que o amigo organizava. Era 1794, e Hölderlin
chegara a Iena. O momento havia sido muito desejado. Lá ficou trabalhando
e convivendo com Goethe, Schiller, e Sinclair, seu mais fiel amigo.
Expressava-se sempre com afirmações sobre seu sentimento de solidão.
Iniciando uma época sombria em que acabou por deixar Iena de forma
impulsiva, voltando a pé para a Alemanha, encontramos o poeta vivendo uma
jornada de angústia que consumiu tempo e esforço. Conta-se que ao voltar
para a casa materna, ele se mostrou em deplorável condição física e
mental, com o olhar vazio e enlouquecido. Em 1801 então, apresentou a
primeira “crise”. Havia perdido o emprego de preceptor na Suíça. Logo
depois, recebeu a informação por carta, da morte de Suzette Gontard e seu
estado se agravou. Desse tempo, dito violento, pouco se sabe. Traduzia
Sófocles. Escrevia também os Cantos da Noite. Suzette foi seu
grande amor, de cujos filhos Hölderlin cuidou como preceptor. Inúmeras
cartas de amor ele recebeu da amante, e até meados de 1800, os encontros,
embora raros, ainda aconteciam.
No romance - Hipérion ou o Eremita na Grécia - Diotima, figura
poética, segundo os críticos, coincide com Suzette, descrita com
características de perfeição:
A paz sagrada de seu coração, esta paz que ela freqüentemente me
transmitira por um instante, através de suas palavras e suas atitudes,
dando-me a sensação de que caminhava novamente no paraíso perdido da
infância... era tudo isto e mais ainda que revivia agora em mim.
A esse momento onde o poeta se sente vivendo a plenitude, momento que
precedeu a separação, Hölderlin se refere mais de uma vez. “Este ser
querido, fiel como um espelho, denunciava-me cada mudança de meu
rosto...”. Diotima foi cantada como a própria divindade encarnada:
Diotima! ah vida enobrecida!
Minha irmã és n’alma emparentada!!
Antes que eu te desse a mão amiga,
Tu eras minha conhecida amada.
..........................................
Ah!, pois em tua mansa formosura,
Ó nobre semblante delicado,
Ó seio! e em tua luz, divina, pura,
Não se tem meu ser acostumado.
A musa Diotima evoca a sacerdotisa do Banquete de Platão, “pois é dela que
Sócrates escuta a doutrina de Eros; (...) o amor – Eros – que Parmênides
disse ser o primeiro dos deuses.”
Da origem da palavra “romance” em latim, temos o percurso de uma língua
que se desdobra em um destino. Hipérion seu romance primeiro, fala
deste “romance-vida” que exprime o sentimento de um homem desejoso de
retomar no excesso, a completude. Hipérion traduz o poeta nessa
busca e nesse caminho onde não há rumo certo. Hölderlin trabalhou neste
romance desde os 22 anos, e só sete anos depois o considerou concluído.
A poética de Hölderlin indica uma preocupação com a origem, com tudo que é
raiz. Hipérion em grego significa o que anda e caminha. A pergunta feita
pelo poeta parece ser como prosseguir? Mas, quando me interrogo sobre a
vida e a obra de Hölderlin, inúmeras perguntas se abrem. Recriar a partir
do sem sentido e da sensação de vazio que nos invade depois de algo que
nos faltou, será sempre buscar dar sentido ao que não tem sentido e se
calou dentro de nós?
A correspondência com parentes e amigos e alguns versos de Hölderlin serão
parte de nossa trilha nesta indagação sobre o que move a escrita. Em junho
de 1799, ele escreve à mãe:
Tenho uma visão bastante clara de toda minha vida, quase até minha
primeiríssima juventude, e sei perfeitamente quando nasceu esta disposição
de minh’alma. Talvez a senhora não acredite, mas ainda me lembro muito
bem. Foi quando morreu meu segundo pai, cujo afeto é para mim
inesquecível, quando, em meio a uma dor incompreensível, senti-me órfão e
testemunhei sua tristeza e as lágrimas que a senhora derramava
diariamente, foi então que minh’alma adquiriu pela primeira vez este jeito
grave que não mais me deixou, e que com o tempo só viria a acentuar-se.
Hölderlin nos conta que “o homem é sempre peregrino”. Seus escritos falam
da dor no momento em que ela mais o dilacera. Mergulhar na totalidade,
assim como faziam os românticos de seu tempo, era parte de seu percurso
poético: “Todos percorremos uma via excêntrica e não existe nenhum outro
caminho possível que conduza da infância à completude,” diz ele. Mas para
onde a completude transborda? Para onde nos levará Hölderlin?
Vivi um dia fugaz e cresci ao lado dos meus
Que, um após outro, adormeceram e me deixaram só.
Mas, adormecidos, no meu coração estais despertos
E alma irmã da vossa guarda vossa imagem fugitiva.
Mas vivos ainda ali viveis, onde a divina alegria
Do espírito rejuvenesce, velhos e mortos, todos.
Seus poemas, da nomeada “fase da loucura”, trazem como morada do poeta a
linguagem. Na escolha das palavras, a amarga condição do homem e a
tentativa de reconciliar o encontro com o absoluto. Em luta o poeta
construía sua obra com esforços sucessivos:
Se eu conseguir um dia sentir menos e ver menos, naquilo em que há falta,
a dor indeterminada que freqüentemente me causa, e que precisamente é
especificada pela falta, momentânea, particular... então minh’alma ficará
mais calma e minha atividade progredirá mais regularmente. (Carta ao seu
irmão datada de 15 de junho de 1799.)
“Meio da vida” é um de seus textos mais traduzidos. Poema moderno que nos
leva a experimentar perguntas sem respostas, intervalos, silêncios.
Ai de mim: onde achar,
Se inverno, as flores, onde
O brilho do sol
E as sombras da terra?
Erguem-se os muros
Mudos, frios: tatalam
As bandeiras ao vento.
Em Hölderlin encontramos a poética da descontinuidade. Sua poesia já se
apresenta fraturada e aponta desconformidade entre os movimentos rítmicos.
As inversões são estranhas.
No verão de 1807, depois de um tempo na clínica e de nada tendo adiantado
o tratamento com o Dr.Autenrieth, o poeta é entregue por seus familiares
aos cuidados do marceneiro Zimmer, de Tubinga. Por admirá-lo bastante,
desde que lera Hipérion, o marceneiro ia visitá-lo durante esse
tempo de internação e se dispusera a tomar conta dele. Até o fim da vida,
o poeta irá viver em casa de Zimmer. Durante 36 anos. Com certeza, o
marceneiro não esquecera as palavras do poeta em Hipérion: “É
assim, meu caro! O que, em toda riqueza, nos torna tão pobres é não
podermos ser sozinhos, é que, em nós, o amor não pode morrer enquanto
vivermos”.
As crises vão se espaçando conforme comentam os biógrafos. Os passeios
pela vizinhança o ajudam a acalmar-se. Sobre os anos escuros diz-se que “distraia-se
tocando cravo e flauta, e ... continuou escrevendo até o fim de seus
dias”. Nas nomeadas “crises”, o poeta se desconhecia de forma muito
especial, pois reconhecia seus poemas mas nomeava-se com outro nome.
Costumava dizer: “Na vida não me chamei Hölderlin mas sim Scardanelli, ou
algo assim.”
“As palavras nascem como flores” disse Hölderlin em um verso. Mas, o que é
a palavra do poeta? Se voltarmos alguns anos atrás, o encontraremos
compondo seus últimos grandes hinos. Com um cuidado de artesão e muita
lucidez. Nessa época, traduziu duas tragédias de Sófocles sem saber grego:
Édipo e Antígona. Por que justamente essas? O que estaria
Hölderlin percorrendo na tentativa de lidar com suas faltas?
O que se abre na linguagem hölderliana, enquanto possibilidade de poesia
moderna, marca um lugar para a ruptura como estilo. O poema é um ato, e um
ato é um dizer. Mostrando-se moderno, o poeta experimentou, em sua
incompletude, versos que se assemelham a um poema concreto de nosso tempo.
Tudo é intenso
Isso separa
Assim guarda o poeta.
(fragmento intitulado “Forma e Espírito”)
Muito já foi dito de Hölderlin, quer em estudos literários quer em estudos
filosóficos, nada o esgota! Vivemos um momento da história que prescinde
dos poetas. Um de seus célebres versos anuncia a poesia como “o modo em
que a humanidade do homem pode conquistar modos de existência na terra”:
“Cheio de méritos, mas é poeticamente que o homem habita essa terra”.
SOLANGE REBUZZI
nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é doutora em Literatura
Brasileira pela UFMG, com a tese intitulada O idioma pedra de João Cabral.
É autora de Contornos (1991), Canto de Sombras (1997),
Pó de borboleta (2002), Leminski, guerreiro da linguagem
(2003) e Leblon, voz e chão (2004).
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