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tavinho paes
dos marginais aos marginalizados
Desorganizadíssimo, fragmentado, sem lideranças e marcado por insanos
acessos de vaidades e invejas, o movimento dos poetas ditos marginais,
que nos anos 70 e 80 pulularam de galho em galho por aí, ainda está para
ser compreendido e discutido. Até segunda ordem, este período não possui
nenhum atrativo.
Embora pareça ter acontecido há séculos atrás, os anos '70, no Brasil,
começaram exatamente no dia 13 de dezembro de 1968, quando foi assinada a
única constituição real que o país já teve: o AI-5 – pelo menos
este pequeno texto paraconstitucional foi o único a ser realmente
respeitado e aplicado com eficiência a todos os segmentos da nação.
Enquanto os americanos curtiam seus Woodstocks de amor livre com drogas
leves e os europeus engajavam-se nas ruas pelas utopias revolucionárias
socializantes, no cone sul das Américas, o hippie e o politizado
foram desumanamente caçados por uma milícia pública ignorante, insensível
e de uma violência descomunal. O pau-de-arara, o choque elétrico e outras
modalidades de tortura física e degradação humana desenvolveram-se tanto
que acabaram exportando seu know-how para as simpáticas ditaduras
vizinhas. Nesta ocasião, apesar de direitos civis e humanos não terem
nenhum valor, muita gente desbundou e saiu por aí cuspindo fogo com suas
metralhadoras cheias de lágrimas...
Pouco a pouco, numa época em que pouco já era demais, desviando da polícia
e das patrulhas ideológicas, foram surgindo os jornalecos nanicos e as
poesias mimeografadas. Grupos ou indivíduos isolados produziram uma
assustadora quantidade de poemas, cuja qualidade estética não se sustenta
diante de modelos vitoriosos como o Modernismo de 22 ou a Geração de 45,
adotados pela Academia e pelo Saber institucionalizado.
Trata-se de uma Babel de abobrinhas perdida para sempre junto com os
fantasmas de seus convictos perdedores. Todos os que puseram as manguinhas
de fora, naquele tempo de Vazio Cultural identificado, sucumbiram à
cólera. Com exceção de um ou outro nome, a morgue onde seus anônimos
cadáveres foram abandonados continua misteriosa e obscura e os campanários
onde se enterraram não recebem flores nem em dia de finados...
À luz do que se diz desta época, tenho a nítida impressão de que fabriquei
uma obra
melancolicamente medíocre e desenrraizada. A diarréia poética patrocinada
pelo slogan do "sexo, drogas & Rock'n'Roll" foi uma espécie de
crime sem solução em que a vítima se identificava com o criminoso e
vice-versa. Décadas depois, apesar de desnecessário, o exame destas fezes
inocentes tornou-se tão aceitável quanto recomprar antigos discos de
vinil, remixados digitalmente em Compact-Discs...
Como participei ativamente deste período, a sensação de estar ausente de
meu destino, vez por outra, me encurrala num poço de advinhações, sem
fundo e sem água potável. O mundo fica escuro ao meu redor e passo a ter a
urgência de encontrar alguma coisa que me devolva ao meu umbigo. Às vezes,
sinto-me como um pintor que se viu privado de sua aquarela. Muita coisa
aconteceu na minha vida desde que vendi meu último livreto numa mesa de
bar (1986). Fiquei tão diferente daquele cara que assediava gente comum
nos bares que até minha morte parece ter me rejeitado. Prá ser sincero,
não desejo viver tudo aquilo novamente. Não me arrependo, mas não gostaria
de reviver nada daquilo outra vez. Motivos que só eu sei me garantem que
um replay seria profundamente desagradável.
O que se chamou de Poesia Marginal ou Geração do Mimeógrafo
não possui instrumentos capazes de garantir que se salte no tempo sem
provocar confusão. O mundo em que aquelas tolices românticas sobreviveram
à beira do abismo, mudou muito de lá para cá. O que nos anos '70 era
conhecido por Imperialismo Cultural, hoje, com a globalização, pode
ser traduzido para Franchising. A cocaína se tornou tão abundante e
vulgar que falar de maconha não faz o menor sentido. O Mandrix do
novo milênio chama-se Prozac. O hippie perdeu espaço para o
yuppie. O Vietnã está no Iraque e nas montanhas afegãs. O muro de
Berlim está sendo erguido no deserto palestino. A geração saúde
prefere uma academia cheia de máquinas acompanhada de uma vitamina de
asteróides anabolizantes a uma dose de LSD numa praia deserta. O Cinema
Novo dos Gláubers e Leon Hirzmans está sendo feito para a TV, a
serviço e soldo das agências publicitárias. Os militantes xiitas da
esquerda renderam-se aos ótimos salários do Serviço Público (onde ninguém
é empregado: vários são colocados). O rebelde passou a ser
chamado de hiper-ativo. Se antes se tomava drogas para se fugir da
realidade e abrir as portas da imaginação; hoje, as mesmas drogas, no
formato aceitável de energéticos, são usadas para que se entre de
vez na realidade imediata, cada vez mais impenetrável em seus bolsões de
tempo calcificado. Os DJs acabaram de vez com os solos de guitarra e as
letras foram suprimidas em suas maquininhas alienantemente corretas. Tudo
se tornou tão by-passado que posso afirmar que o Passado que se
gostaria de resgatar está prá lá de ultra-passado!
As contradições atuais são monumentais. A ausência da prática da
dialética torna necessário esqueçer as dores e os sofrimentos dos
tempos da repressão para não perturbar o sono dos que nos concederam a
dádiva da democracia e que. hoje, participam da máquina de estado. Os que
discordam do estado de direito que vivemos são considerados incorrigíveis
e chatos que não sabem viver sem reclamar. Chegam até a citar problemas
sexuais e de idade para justificar a ranzinzagem destes inimigos do
progresso neo-liberal, onde, a cada melhora no bolso da classe média e seu
conseqüente consumo de bens descartáveis corresponde um avanço nas
estatísticas de miséria. Parece até que as oportunidades de trabalho, a
distribuição de renda, o acesso à boa educação e à saúde pública são
assuntos que já foram resolvidos a contento; quando não são tratados como
índices de eficiência manipuláveis em processos de eleição. Não se deve
falar mal da esquerda democraticamente instalada: pode-se dar munição para
um inimigo que divide com os Amigos dos Amigos, os empregos dos
altos escalões assalariados do estado...
Parece que vivemos no melhor país do mundo. Não temos terremotos,
furacões, ataques terroristas, manifestações de racismo preconceituoso,
passeatas, etc... A violência das periferias, a truculência dos esquadrões
de extermínio, o poder de fogo dos traficantes de drogas, a fome e a
prostituição infantil são assuntos que a imprensa diária
irresponsávelmente fuça, com o intuito único de baixar nosso astral. Quem
precisa se preocupar com isso, depois que votou num cara que vai resolver
tudo em seu nome? Será que alguém se elege só para garantir salário e
aposentadoria depois do mandato sufragitário?
Acomodamos nossas frustações utópicas num universo de conquistas sociais
tardias e
contraditórias. Somos um povo mais pacífico do que coelhinhos de desenhos
animados. Não existem mais os anarquistas, os comunistas, os
guerrilheiros, os doidões... Quem precisa disso, se temos à mão um grupo
de vitoriosos? Somos quase hexa-campeões de futebol, nosso vôlei é medalha
de ouro, Ayrton Senna é uma unanimidade internacional e o Massa é massa!
Nem a canalha que subloca o poder é a mesma. Novos nomes garantem a
renovação das células psico-partidárias. Estamos tão satisfeitos com as
novidades que não temos tempo para perder com quem quer que nos enche o
saco com reclamações e prioridades. Se um ou outro rouba mas faz; se o
outro compra a direita para aprovar democraticamente regras que garantam a
revolução socializante dos anos passados; não custa nada continuarmos
pagando impostos calados e sossegados. Impunidade é chic e vale a
pena para quem tiver coragem. Cueca sempre foi lugar para se guardar a
mala...
Cada um cuidando de sua vida, vigiando o outro e com uma coisa em
comum: tentando levar vantagem em tudo! – eis o nosso modelo de
socialismo interativo! O máximo que fazemos é falar mal dos políticos em
mesinhas de bar; uma ou outra greve em serviços populares essenciais; um
ou outro grupo rebelde de funkeiros xingando a polícia e elogiando as
ações do Comando Vermelho. Tudo tão previsível quando as profecias de
Hermann Khan. O único dado inusitado é que continuamos a ser o país dos
eternos domingos. Todos nós queremos um domingo tranqüilo, uma
cervejinha entre amigos, um mergulho no Atlântico e gols de Romário na TV.
Ainda vamos ser o país do futuro que Stephan Zweig entreviu, antes
de se suicidar. Mas, por enquanto, temos que nos resignar com a condição
de sermos o país do Presente. Aliás: o país do maior presente
contínuo pensável!
A única história que nos interessa é a do Presente. O futuro é sempre
amanhã e o passado é uma aporrinhação que só merece atenção quando falamos
dos mortos. Quando um jovem escuta que o aquecimento global e a poluição
vai acabar com o mundo, para que se incomodar com esse futuro medonho,
cheio de desgraças inevitáveis? É melhor viver o presente. É mais fácil
encontrar heróis defuntos num passado que se pode dourar com a boa vontade
das esperanças religiosas e a passividade dos bem educados que não
reclamam de nada e são considerados do Bem. Afaste-se dos brigões. Aceite
o que te garante o emprego e as oportunidades. Fique na sua, sem ser
covarde...
O que se convencionou chamar de Anos Rebeldes, continua sendo um
território sombrio, de onde heróis guerreiros e inocentes ultrajados, vez
por outra, merecem ser resgatados e homenageados. Identificar mudanças
sutis no dia-a-dia da cultura das utopias é algo muito simples, já que as
mudanças que podemos entrever na linha do tempo registrado não foram
ordinárias nem definitivas. Com a dialética em decadência, aqueles que se
acostumaram a engraxar os coturnos dos ditadores e babarem ovos de
chiquérrimos socialites, foram reciclados pelas manhas da
multimídia e, hoje, se tornaram democratas fogosos, pacifistas conscientes
e liberais ad extremun. Torturadores servem aos misteriosos
funcionários do Itamaraty; são eleitos para o Congresso em estados
recém-criados e fazem discursos dignos da Igreja progressista do PT. A
corrupção, o nepotismo e a miséria continuam dando um show no horário
nobre. Pessoas de todas as idades estão sendo seqüestradas às dúzias,
todos os dias. Juízes fraudam descaradamente o INSS. Narcóticos são tão
comuns quanto pipoca numa sessão de cinema. O exército é requisitado pela
opinião pública para policiar as ruas das grandes metrópoles. A decadência
é lights. Ou será diet?
Apesar dos grandes progressos no campo das ideologias e do fim da
guerra-fria, a velocidade com que as mudanças estão entrando no nosso
cotidiano ainda não trouxeram respostas para todos os nossos problemas
imediatos. Temos que lidar com coisas como AIDS, traficantes, crianças de
rua, muçulmanos xiitas, assassinos seriais, blitzes organizadas por
marginais fardados de policiais, etc. Rouba-se carro com muito mais
freqüência que na época do Lúcio Flávio – onde, ainda, era possível dizer
que polícia era polícia e bandido, bandido!
Algumas coisas boas também estão acontecendo. Existem os ecologistas do
Greenpeace; a MTV; a Internet; os Rolling Stones, incluindo Copacabana em
sua turnê mundial. Há toda uma nova geração ligada em saúde e esportes;
malhando em academias; estudando em cursinhos de teatro, sonhando com o
estrelato na TV Globo, pilotando computadores e video-games. Está tudo
indo muito bem, embora ninguém possa responder ao certo Para Onde?
nem Porquê?
Será que a poesia que surgiu e desapareceu enquanto os anos rebeldes
iam enlouquecendo poderiafazer sentido hoje em dia? Será que se eu saísse
vendendo meus livretinhos por aí, poderia novamente pagar aluguel, viajar
pelo Brasil, comer em restaurantes da moda, bancar certo lazer nos
fins-de-semana? Com certeza: NÃO!
Pelo que pude observar numa experiência realizada em outubro de 1994, a
recepção nas mesas de bar já não era a mesma. Remontei um livrinho antigo
e passei duas semanas zanzando de bar-em-bar, de mesa-em-mesa. Foi um
pesadelo minimalista. Antes, eu driblava a polícia política; vinte anos
depois, tive que diplomaticamente enfrentar a ignorância contratada dos
leões-de-chácara e me perguntar: Será que ninguém percebe que esta
força, formada por seguranças contratados, todos com passagens pelos
departamentos militares da polícia e, alguns, delas desligados por
corrupção e abuso de poder, é uma força de ataque que está se portando
como se fosse uma força de defesa capaz de manter a paz e a tranqüilidade
de quem se diverte em áreas de exclusão chamadas de VIPs? Será que ninguém
se deu conta que ao votar pelo NÃO ÀS ARMAS deixou em aberto a
possibilidade destes contingentes para-militares terem acesso legal ao
mercado do chumbo e da pólvora? Será que ninguém se dá conta de que basta
um desvio na ordem pública para que a tragédia anunciada entre em ação e
estas forças trabalhem como hutus numa Ruanda panamericanizada?
Antes, quando circulei com meus livretos por aí, havia toda uma situação
de instabilidade nos direitos civis garantindo a cumplicidade entre as
partes; hoje, a falsa sensação de liberdade que se vende ao público, sob
um clima de Glasnost tropicalizada, é quase psicótica e reage
negativamente aos assédios voluntários de quem não é da sua turma, sua
tribo, seu gueto identificado. A força de coalizão empregada para garantir
a atmosfera de democracia plena está mistificando uma guerra suja, surda e
muito mais violenta, cujas vítimas ainda estão por ser contadas e cujos
lados em que os combatentes defendem suas vidas não podem mais ser
escolhidos. Na nova guerra, você será automaticamente co-optado pelo lado
em que está, independente da sua vontade, das suas idéias e das suas
determinações. Tropa de Elite só serve para excitar uma Troca de Elites...
A Poesia saiu dos trilhos. Pode ser escrita a partir de pesquisas,
de acordo com a demanda por um assunto específico, em função de um dado
estatístico. Pode ser recitada em eventos que parecem psicodramas de
auto-ajuda por poetas que não merecem nem tapas na cara. Ao invés de um
pacotinho de poemas vendidos de mão-em-mão, economicamente é preferível
passar adiante envelopes de cocaína batizada com a higiene das favelas.
Papel por papel, o que se identifica com drogas tem mais consumidores à
vista e máxima tolerância do mercado. O mar não tá prá peixe...
Diante do imponderável, quem quiser arriscar tem que competir com o
ridículo e com ele não se estranhar. Não é para desafinar o coro dos
contentes. O objetivo não é responder se a poesia ainda existe ou se a
poesia que se faz ou que já foi feita pode ser constantemente atualizada.
Não defenda a duvidosa qualidade teórica de sua própria produção nem
ofereça ao seu orgulho uma satisfação bisexta ou imediata. Todo o esforço
que precisa ser injetado nos trabalhos que hoje consomem tempo e
imaginação de quem os pratica deve pretender única e objetivamente
fornecer uma visão de dentro do processo poético que marca a geração em
desenvolvimento. Pode ser que os futuros estudos desta época,
simultaneamente fértil e doente, fiquem facilitados com estes esforços.
Pode ser que eu esteja cometendo mais uma indelicadeza. Sempre fui chegado
a cometer uma descortesia. Idiossincrasias são parte do menu
contemporâneo. Quem sobreviver, verá a merda em que isso tudo vai dar!
TAVINHO PAES é poeta
e compositor. Com mais de 200 trabalhos musicais, em parceria com artistas
como Caetano Veloso e Lobão, tem cerca de 100 títulos lançados como
panfletos marginais desde 1975. Seus últimos livros são Baralho
(2008) e Poematrix (2009). O texto acima foi publicado
originalmente na tese de doutorado Branco sobre branco do escritor
Guilherme Zarvos.
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