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dinho
recortes
Um comedor de maconha
I
a aurora da maconha
les nuages qui passent... daguerreotipadas em psychés num périplo
ante o precipício do transreal egocêntrico. No entanto, um quase novo
tempo. Je suis les nuages... Aerifico-me e calo. Mas o Eu come
perfumada maconha e que psycho-perfume há como o perfume dum campo mítico?
Um campo em que fadas safadas se desflorifadam! Je vois les fées en les
nuages... Ah, eu suplico e retenho todo o vômito alossomático. E a
vós, fadas, não vos tenho? Feiticeiramente tocai com a boca em minha
flauta infrene! Há uma gnose em meu gozo... há o Eu-profundo esfacelado...
como estetas estupraram uma flor azul!
II
o meio-dia da maconha
Quem falou de fumar? Comer é tudo! Há no estômago uma escura digestão
messiânica que escorre até o umbigo de um cosmos cerebral! Um lume sempre
ultravejo... E reclamam-me uma psiquiatra! Oh, depravada desbravadora de
infinitos fios desconexos, em teu divã te comi comendo a maconha que
recusaste! E torna-me o lume, escurecendo em tuas nádegas um calor
irônico! Freudianas fadas hipnotizem-me!...
Devaneios, devaneios... estou no sonho de núpcias de Endymion e minha
amada geme melodias espasmódicas e em suas orelhas arché-acústicas remei
um epitalâmio de um rapsodo hemofílico e em cada movimento a esfaqueava
com um falo imagisticamente monádico e ela lançava um lamacento sangue à
via-láctea estertora e antagonizamos o fogo solar de uma identidade eterna
porvindoura e a noite de dáimons semafóricos emana uma orgiástica
mitogonia intra-moderna!... nas crateras da Lua libei meu petrolífero
vinho.
III
o ocaso da maconha
Primas sombras começam a permear as imagens mais primevas... O filósofo,
sofre de diánoia-câncer, sonha com a Alétheia... e acorda, sonolento,
escarrando os pulmões, para beber um copo das águas do Lethes. E como
Orfeu sucumbo às bacantes violentas! Despedaçam-me com voluptuosidades
dissecadoras de meu semi-cadáver. Ricorditi di me..., tonitroou-me
a sombra de Helena que em meu colo cavalga, já desindividualizada no
milionésimo de sombras de meus rançosos neurônios. Remembrarei dos heróis?
Never more! E, no entanto, como e como mais! As angústias da
gastrite findam-se em minhas fezes; aí respiro um nauseante metano
primordial, cristalizado nas cinzas dos Titãs comedores do écstasis
transmorfo, ora formado, falicamente, em maconha!
O lume faz-se fraco e fraco: a amnésia de um anjo.
IV
a meia-noite da maconha
Como da maconha!, cujo sabor se me assemelha salpicado de irônicas bruxas
ideais. Ante meus olhos descarnados um cemitério... a escatológica doxa da
maconha crua é um firmamento negro... o egológio um vazio ontológico. O
Darkness! Darkness! Não vomito!
Decalogia de uma mente
paleopatologista
Onde há doença?... Durante a noite, estrábicas crianças medievais
brincavam com as ossadas descarnadas das antigüidades, até serem
encobertas pelo sufocamento de uma avalanche. Roupas, carne e pele...
Sangue em olhos dicotômicos.
Disenterias por um nenúfar oriental?... Um alovesúvio. A deformidade das
assombrações encrostadas em suas expressões helenicamente mascaradas.
... gargantas tuberculosas engasgaram com sifilíticos falos... os legistas
para si fazem-nos de cadáveres onanistas...
Gravitações por meus catarros escorridos desinfetam mumificações.
... O Homo sapiens sapiens desgela mamutes de palpável
monstruosidade, cujas entranhas queimam nas fogueiras... Sensações de
úlcera desmitificadora.
?... Um australopiteco acorrentado – desertos neoplasmáticos da
onipotencialidade sísmica – num brutalmente marmóreo rochedo cravado nas
raízes dum areal de gelo movediço, sintomáticas reminiscências da
glaciação. Abutres atemporais – de genéticos liames fragmentados com
pterodáctilos – adormeciam nas soníferas rotações das fogueiras
prototípicas: centuplicaram-nas sangüineamente as infecções urinárias de
hecatombes cósmicas – banquetes tantálicos.
Ad plures ire – policêntrico cemitério de um único, um solitário
sem moedas. Órficas tabuletas rasas... Haveria metafísica?
Uma corcunda algésica – um bulício pra além das muralhas das promessas –
sobre os arquétipos dos jeremias que deve gotejá-los dos planos
espermáticos.
... que ponha a sua boca no pó; no limiar da cratera do Xeol pulmões
estelares se liqüefazem por aberturas de celestes goteiras.
Nas grutas mais grotescas os corpos putrefatos.
Uma moto-figura hermenêutica, a mando de Fantasmagorias basiléias, aporta
Seu páralo semaférico às margens da pólis de Pérgamo. Pathológicas
catálises.
Um divino sob páramos límpidos – longos dias – um nubicogo nubifá-lo
incongruamente pelo fumo anapulmonar.
- Além, além os astros se nebulosam? – bruxuleiam palavras telescópicas.
Os astros permanecem além – um divino expande-se condensando formas
obscuras. Obnubilam-se aquém os fastos báculos catacósmicos. Entre as
brumas, a concretude multidirecional.
DINHO
(Irlim Corrêa Lima Jr.)
é escritor e poeta. Formou-se em grego pela UFRJ e, depois desse absurdo
social, deixou o mundo de uma vez por todas entrando para a ordem de São
Francisco.
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