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clóvis bulcão
a lousa
Detesto a palavra lousa. Na minha cidade, o Rio de Janeiro, ela nunca é
usada. Os cariocas usam a expressão quadro-negro. Não me lembro de ter
visto em toda a minha vida um quadro-negro da cor preta. Sei que em algum
lugar no passado eles eram assim, negros e sisudos. Muito antes do
movimento ecológico as lousas ficaram verdes. A ciência havia provado que
a nova cor relaxa os alunos e facilitava a aprendizagem. Acabo de escutar
um boato de que o quadro-negro está com os dias contados. Em três anos
eles serão trocados pelos quadros brancos que demandam canetas hidrocor.
Uma medida compatível com a era digital, a final o pó de giz e os
computadores são arquiinimigos.
Quando eu era aluno a minha escola particular investiu em lousas
sofisticadas. Eram verdes e podiam ser abertas em folhas como se fosse um
livro de quatro páginas. Corriam em trilhos e permitiam ao professor
levantá-las em direção ao teto, facilitando a visão dos alunos que
freqüentavam o fundo da sala. As pessoas que visitavam o meu colégio
adoravam essa engenhoca tecnológica. Era realmente prático, pois uma aula
podia ser mantida de um dia para o outro como se estivesse sido escrita em
uma folha de caderno.
Eu e meus colegas logo descobrimos que havia um outro e formidável uso
para essa maravilha da tecnologia, preparar colas. Colas que poderiam ser
usadas de forma coletiva. Bastava escondê-las nas entrelinhas de alguma
matéria, guardava em uma de suas páginas. Em dia de prova abríamos na folha
certa e a lousa era levantada. A cola se transformava num outdoor. A
artimanha de tanto ser usada acabou ficando manjada. Os professores
sempre mudavam a página do quadro-negro.
Quando fui fazer o ensino médio, na época era chamado de segundo grau,
mudei de escola. Do ponto de vista tecnológico foi uma catástrofe. Era uma
lousa de giz, verde e estática, muito sem graça! A única vez em que achei
alguma graça foi quando participei de um ato contra um professor de
química. Nunca me senti atraído por carbonos, spins e a tabela periódica.
Muitos mestres de ciências exatas se consideram os guardiões da verdade
científica. Logo, se sentem intocáveis. Confundem a beleza da natureza com
o conteúdo de suas aulas. Os mais fundamentalistas se tornam uns
insuportáveis.
Eu e meus vizinhos de fundo de sala também devíamos ser uns chatos. Havia
entre nós e o professor de química um permanente ar de deboche. Ele nos
chamava “carinhosamente” de suburbone. Nós respondíamos
infernizando a aula, ou vice e versa. A ofensa era um tanto elogiosa, pois
éramos desagradáveis, mas bons alunos. Um dia os gênios da sucursal da
famosa universidade francesa resolveram aprontar. Passamos doce de leite
da marca Chup no apagador. No entanto, nosso plano foi frustrado
pois fomos denunciados. O delator fez questão de revelar tudo de forma
clara, só não deu nome aos bois, nem era preciso. O professor de química
olhou pra suburbone e colocou o apagador no canto do quadro e
mandou que viesse outro da sala ao lado.
A aula transcorreu normalmente. Até o momento em que o quadro já lotado de
fórmulas químicas obrigou o nosso detrator a se aproximar do canto perto
do preterido apagador. Para o nosso doce deleite aos quarenta e cinco do
segundo tempo, de forma instintiva, ele carcou o apagador no quadro-negro.
A suburbone vibrou! A nossa genialidade ficou marcada no quadro.
Outro inconveniente do velho quadro-negro é o giz. Nada mais insuportável
do que ficar com as mãos sujas. Pouco importa se é de qualidade,
antialérgico ou importado, giz é algo desagradável e sujo. Sem contar que
só limpa com água. De nada adianta o apagador se não houver uma boa
limpeza feita com H2O. Outro aspecto irritante do giz é o pseudo efeito
causado em muitas turmas. É comum um professor dizer que vai trocar o
aluno de lugar e escutar: não posso sentar na frente, sou alérgico! Poucos
alergistas conheceram tantos alérgicos como alguns professores. Eu sempre
cedo pois detesto giz.
Talvez essa tenha sido a razão para o surgimento das lousas brancas. Elas
surgiram no início dos anos noventa e foram ocupando espaço de forma muito
tímida. Nunca tiveram fôlego para matar tecnologicamente o velho
quadro-negro. O motivo deve ser financeiro. A caneta hidrocor é cara assim
como a apagador apropriado. Além do mais, a tinta acabava rápido. É
horrível ministrar uma aula e de repente a caneta começa a falhar. Poucos
professores conseguem manter de forma harmônica um conjunto de canetas e
apagador.
Em algumas escolas públicas da rede municipal do Rio de Janeiro essas
modernas lousas foram instaladas. Claro que após honestíssima e rigorosa
licitação foram adquiridas as mais baratas do mercado. Em pouco tempo de
uso elas se mostravam incapazes de resistir à fúria da escrevinhação dos
mestres, ou melhor, como eram muito vagabundas logo ficaram manchadas.
Nada pior do que um quadro branco todo borrado.
O mercado deve (ou deveria), em breve, enterrar ambas as lousas. O tempo
do giz e da caneta hidrocor chegou ao fim. A alta tecnologia chegou! As
lousas agora são digitais. O giz acaba de virar mouse. Basta ter
uma boa conexão internet, um computador e uma lousa eletrônica. As velhas
e empoeiradas aulas de cuspe e giz acabam de receber suas sentenças de
morte. Os professores que repetem os mesmos cursos desde o início dos
tempos terão de se adaptar. Qualquer aula doravante poderá ser recheada
por imagens, filmes e sons baixados instantaneamente da grande rede. No
fim tudo será gravado e mandado por email para os alunos.
Os recursos visuais da lousa eletrônica se assemelham, grosso modo, aos do
powerpoit. Na lousa os objetos se movem, os mapas podem ser coloridos, os
textos sublinhados, a tela focada em um objeto, a letra do professor pode
ser convertida em Arial 12 com apenas dois cliques.
Não tenho a ilusão de os alunos farão o mesmo que os meus contemporâneos
faziam com o velho quadro-negro. Usar como instrumento de cola é mais
complicado, pois tudo fica gravado e existem senhas de acesso. Seria fora
da realidade achar que ela não sofrerá atos de vandalismo. Mas que aluno
no século XXI vai preferir uma aula tradicional no lugar da aula de
linguagem internet? A ausência da lousa vai condená-los aos velhos métodos
do cuspe e giz. Pior só tortura chinesa!
Talvez o caderno e os livros didáticos tenham o mesmo destino do
quadro-negro de giz, o lixo. Talvez os professores que resistem à
modernização sejam removidos, ou arrastados, para as lixeiras. Talvez o
computador vire uma ferramenta educacional mais efetiva. Talvez as
bibliotecas virtuais se tornem uma verdadeira opção de pesquisa. Talvez o
livro eletrônico entre na vida dos alunos. Talvez seja de fato uma
revolução! Talvez!
CLÓVIS BULCÃO
é escritor e historiador, autor dos romances A Quarta Parte do Mundo, A
Marquesa dos Santos, Leopoldina – A Princesa do Brasil, Pequeno dicionário
de personagens da literatura brasileira e é um dos autores do livro
Corrupção 18 contos. Lançou recentemente uma biografia do padre Antônio
Vieira.
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