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alguns cacos - o poema Opiário
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Quando se lê o poema “Opiário” é respeitável admitir que a sua voz cumpra
o destino da batalha. Os versos Álvaro de Campos sabotam, em despedidas, a
poesia por acuidade da prosa — assim como o mundanismo do ópio acentua a
anomalia de estar sempre em viagem.
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Os primeiros versos do “Opiário” arranjam o paradoxo no qual se encontra a
melhor narcose da tragédia na modernidade artística. Fala-se, aqui,
daquele tipo de tragédia que se entrega ao cômico a partir de um sublime
decaído e ordinário como o uso de ópio — é antes do ópio que a minha’
alma é doente./ Sentir a vida convalesce e estiola/ E eu vou buscar ao
ópio que consola/ Um Oriente ao oriente do Oriente.
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Um Oriente ao oriente do Oriente — este verso Álvaro de Campos
cumpre a própria ordinariedade da situação de se estar sempre no mesmo
lugar; na clausura de um eu e em constante viagem. A determinação de um
oriente além do próprio afirma o lugar no qual se nasce. Isso quer dizer:
nada nasce, inicia, encontra sua condição primitiva sem os olhos que se
abrem após uma boa dose da pergunta: onde me encontro?
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Deve se evitar ler o poema “Opiário” tentando considerar o mais profundo
como algo a ser encontrado, estabelecendo os versos no imediato de um
auxílio para quem se sente em perigo ao navegar neles. O mais profundo do
poema só se dá na superfície da “onda”, caso já se esteja pensando na
acidez do humor nos versos — quando se pensa apenas estar pensando sobre
isso na murada de um navio, atravessando o canal de Suez. Quem
pensou já fala, isso quer dizer: os versos Álvaro de Campos consubstanciam
a idéia de que quem pensa não está pronto e nem alcança seu fim quando
fala. Ou seja: só quem pensou, fala já do começo e encontra as evidências
humorísticas de que toda a vida é um navio a buscar porto e que os canais,
a ligar oceanos, levam ao mesmo lugar: a morte é certa/tenho pensado
nisto muitas vezes.
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É preciso aprender que a expectativa de vida é uma esteira que a gente
enrola e deixa de ser bela — chame a isso de Oriente. Os versos
Álvaro de Campos expõem o perigo de parecer que o pensamento circula em
torno de si atraído por um turbilhão vazio, maelstron, sem fundo e
sem meta. É por isso que é necessário sustentar a opiofagia da forma para
doar ao pensamento a mesma febre do sentimento para que ele encontre
matéria fantasma e nela soe a sensação: Pertenço a um gênero de
portugueses/ Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem
trabalho.(..)
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É importante perceber que o “Opiário” declina o moderno como o originário.
Essa declinação impede que haja apenas uma inversão entre os termos; ou
seja: se a viagem à Índia é o originário do moderno, isso acentua que o
seu traço fundamental, após a primeira viagem, é o encobrimento, acentuado
pelo canal de Suez, que talvez nada mais seja do que esta
modernidade artística dos versos Álvaro de Campos: eu acho que não vale
a pena ter/ Ido ao Oriente e visto a Índia e a China./ A terra é
semelhante e pequenina/ E há só uma maneira de viver.
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Há um caráter morfológico da palavra ópio no respectivo poema; contrária a
qualquer possibilidade gramatical, cunhando o seu exagero. Assim que se
ouve a palavra já sabemos da opiofagia em andamento. Isso se traduz na
ocorrência da viagem que se passa no fragrante que exala o sentido que
pode ter. Como o poema, porém, não esconde o uso do ópio, a circunstância
de substantivo aclara que seu delírio é a posição verbal de sua maresia. A
palavra ópio é a palavra do tempo do poema, o verbo de todos os versos
Álvaro de Campos que nomeiam a oceânica circunstância: a minha vida
mude-a Deus ou finde-a...
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A situação dos fatos no “Opiário” expressa a temível palavrinha é. Ela
estende sua presença e faz compreender a confissão dos versos Álvaro de
Campos. Quando isso se mostra, a nuvem do esquecimento ativa-se e os
acontecimentos mais simples denunciam a força de sua estranheza, exigindo
um vagar excitadíssimo: caio no ópio por força. Lá querer/ Que eu leve
a limpo uma vida destas/ Não se pode exigir./ Almas honestas/ Com horas
para dormir e comer,(...) Que um raio as parta! E isto é afinal é inveja./
Porque estes nervos são a minha morte./ Não haver navios que me
transporte/ Para onde eu nada queira que o não veja!
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Na oportunidade de ler o “Opiário”, autobiografados por uma confissão
forasteira a nós, a representação do tempo enjoa, intoxicando-se do antes
e do depois sem dar qualquer atenção a qualquer um deles. A maresia do
tempo inibe a história e, portanto, apresenta um modo de envio, de
antecipação e de destino: um inútil./ Mas é tão justo sê-lo!/ Pudesse a
gente desprezar os outros/ E, ainda que co’ os cotovelos rotos/ Ser herói,
doido, amaldiçoado ou belo!
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Há no “Opiário” um vestígio da épica, cuja grande aspiração que a
caracteriza está cambaleante. Cambaleando, a épica cumpre no poema o
caráter artístico que não almeja a energia, nem o movimento; mas, o
repouso da narcose e a formação imaginativa do desvairo. O tom fundamental
dos versos Álvaro de Campos apresentam o declínio e o devir do momento
opiofágico. Esse momento, porém, só o é, por que consubstancia o que
subsiste da viagem à Índia na desagregação histórica. Nesse ambiente, os
versos só podem saborear a acidez do humor. A viagem é agora, no poema,
algo como: ando expiando um crime numa mala,/ Que um avô meu cometeu
por requinte./ Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,/ E caí no ópio
como numa vala.
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Todos sabem que a poesia mais elevada é aquela em que o não poético se
torna poema. No caso do “Opiário” isso se dá de maneira bastante singular.
Isso quer dizer: só há o altivo no instante da queda, quanto ao não
poético, ele está consolidado na inclinação do vício, cujo plano sensível
e o tratamento metafórico se deixa tratar com o eco destes versos:
fumo. Canso. Ah uma terra enfim,/ Muito a leste não fosse a oeste já!/ Pra
que fui visitar a Índia que há/ Se não há Índia senão a alma em mim?
*** Se “Os Lusíadas” só podem aparecer, culturalmente, como uma pausa infinita na História, e se isso prescreve uma sensação bela e abençoada da viagem à Índia, o “Opiário” é, por aversão, uma anedota lutuosa sobre a contemporaneidade da herança. Assim, os versos Álvaro de Campos cumprem o acontecimento fundador como algo completamente repleto de agoras. Isso quer dizer: os versos do “Opiário” não querem saber de nada sobre a aventura apreendida nos versos camonianos e, por isso, não pretendem atingir um grau de hipertrofia que chega a decompor o real, como é o caso de “Os Lusíadas”. De fato, a melhor posição da acidez do humor para com “poema maior” são os seguintes versos Álvaro de Campos: deixe-me estar aqui, nesta cadeira,/ Até virem meter-me no caixão./ Nasci para mandarim de condição,/ Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
O “Opiário” é uma leitura inscrita, assim como indica a modernidade
poética. Desse jeito, a metáfora da escrita, a leitura, não é afetada pela
significação. Isso se dá no imediato da interrupção incitada pelos versos
Álvaro de Campos — na medida em que os versos indicam um ponto
imediatamente anterior ao extravasamento das emoções, no qual se perdem
sempre em prosa. É isso, portanto, que gera o fundamento da tristeza
acoplada à acidez do humor, cujos versos correspondentes são a grave
circunstância de um descuido de leitura que teremos que aprender: não
posso estar em parte alguma./ A minha Pátria é onde não estou./ Sou doente
e fraco./ O comissário de bordo é um velhaco./ Viu-me co’ a sueca... e o
resto ele advinha.
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