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paloma vidal
o retorno da viagem em Del cielo a casa
No conto que dá nome
ao livro a narradora viaja para Roma. “Na realidade, a gente viaja para
ver se são verdadeiros o Coliseu, o Vesúvio e o Papa em sua varanda”, ela
começa dizendo. O olhar turístico vai sendo desmontado sem que se tome uma
distância absoluta dele, o que se manifesta no uso de um “a gente” no qual
a narradora se inclui. Ela é uma turista. Foi a Roma para ver os seus
lugares-comuns, como qualquer um nessa condição. Essa aparente ingenuidade
é algo muito próprio dos narradores de Uhart, que se afastam
deliberadamente de qualquer intelectualismo para assim realizar alguns
deslocamentos em relação tanto ao olhar do senso-comum quanto ao do
conhecedor. Diante do Coliseu, a narradora sente que a história a “abruma”
e seu olhar então se desloca para “detalhes absurdos”, como por exemplo a
loja “Euroclero”, espécie de supermercado em que religiosos do mundo todo
compram seus objetos sagrados. Vai sendo gerado desse modo um olhar
conflitado, informado e ao mesmo tempo incauto, estrangeiro e ao mesmo
tempo assimilado, que se imagina transformando a terra estrangeira na sua
própria casa, mas por sua vez afirma que “a gente não viaja para estar
como Pedro por sua casa, pois para isso a gente fica no seu bairro”.
Nesse momento há um
corte e na cena seguinte estamos no aeroporto. A mente finalmente descansa
dos estímulos contraditórios. Prepara-se o retorno. No avião, a narradora
se senta ao lado de uma moça argentina que imigrou para a Itália. Seu
marido e ela estão voltando para visitar a mãe e levam de presente uma
cadelinha que viaja sob o assento do marido. Do “a gente” deslocado da
primeira parte passamos a uma primeira pessoa mediada pela narradora:
“Sim, sim, falava pelo telefone com sua mãe uma vez por semana”. Mais uma
vez, proximidade e distanciamento. A simplicidade desse casal é a outra
face da viagem: não mais a vontade de conhecer do estrangeiro, mas a
necessidade de se adaptar do imigrante. “Sim, sim, tinha sentido muita
saudade na primeira semana; mas via as novelas italianas, porque lhe deram
uma casinha, uma televisão e uma motoneta para ir fazer compras na
cidade”. A breve intimidade com essa moça está condensada na cena prosaica
em que alimentam a cadelinha, sentada no colo da narradora. As duas se
sentem em casa, embora ainda estejam no ar. Essa sensação é antecipada
quando a narradora diz que poderia ficar morando em Roma, pois já se
acostumou a tomar um café na Marcellina, a estação anterior à terminal de
Nápoles. Desde o título, na verdade, anuncia-se a possibilidade de estar
em casa, que não se realiza no conto, mas determina seu horizonte. Como,
de resto, determina o horizonte do livro: a viagem tem sempre um retorno
que lhe extrai a importância, relegando-a possivelmente ao esquecimento.
Também no conto “Una
escritora de la capital” a história se suspende no momento do retorno. “O
mundo era como devia ser” é a frase que remata o texto, depois do encontro
da protagonista com um rapaz que lhe dá a mão “com ar de quem não quer
nada”, fórmula que bem poderia servir para descrever todos os personagens
de Uhart, que viajam sem esperar nada da viagem. Eva, “moderna demais e
antiga demais ao mesmo tempo”, vai para uma cidade do interior para dar
uma palestra. Ao chegar no hotel, diante da mesmice da paisagem, tem um
“ataque de desolação”. “Para além das casas, pampa e pampa, a mesma que
vira pelo caminho e por mais que quisesse estudá-la, não oferecia nenhuma
novidade”. O sentimento de inadequação se prolonga pelo conto, no
contraste entre a cidade como “lugar da liberdade” e o aprisionamento
nessa paisagem desolada. Necessariamente num dado momento a personagem se
pergunta: “O que eu estou fazendo aqui?” Não interessa, porém, responder à
pergunta, explorando os motivos que a levaram até ali. Pelo contrário, a
indagação serve para reforçar a sensação de que a personagem não tem
controle sobre o que lhe acontece, como uma criança cujas ações são
decididas pelos pais a quem é preciso acatar.
Esse tipo de
acatamento produz uma infantilização dos personagens, o que freqüentemente
determinou que se designasse a literatura de Uhart como naïf. Sobre
isso, ela afirma; “eu tenho a técnica de me fazer de idiota”. Há
efetivamente uma construção da ingenuidade. Em nenhum outro conto isso
fica tão claro quanto em “Congresso”. Convidada para um congresso na
Alemanha, a protagonista se encontra em meio a um grupo de escritores
seguros de si; são os “expertos em congressos”, que têm o “dom da
oportunidade” e que sabem “dizer as coisas adequadas no momento preciso e
no lugar indicado”. A escritora responde com uma teimosia infantil,
fazendo tudo o contrário do que seria esperado nessa situação: pronuncia
mal as palavras, se veste inadequadamente, comete gafes, transformando-se
na “fonte de todas as condutas detestáveis possíveis”. Desse modo ela
deixa em evidência a vontade que os outros têm de agradar, solapando o que
consideram sinais de subdesenvolvimento ou aproveitando-se do
estranhamento que sua cultura provoca nos estrangeiros. Para a
protagonista, essa relação se coloca em forma de pergunta: “O que será que
os alemães entenderiam disso?” Quase nada provavelmente. A viagem não
serve para estabelecer pontes. Um diálogo possível é com os uruguaios,
cuja afinidade se constrói em torno de uma marginalidade comum, já que
foram colocados num hotel mais barato que o dos “expertos em congressos”.
A referência aos
uruguaios é sugestiva. Num texto de Sergio Chejfec intitulado “La parte
por el todo”, encontramos um exame da presença do Uruguai na literatura
argentina. “O Uruguai foi sempre a comarca ideal para assinalar
marcadamente o diferente, o que é parecido e por isso não pode ser igual,
no máximo um pouco equivalente”, afirma o escritor. Um dos motivos da
fascinação que o Uruguai exerceu nos escritores argentinos ao longo da
história foi a possibilidade de realizar o experimento imaginário de uma
Argentina que não tenha passado pelo peronismo. Via Onetti, foi possível
criar um “universo fortemente moral e essencialmente apolítico” que abriga
esse experimento de uma Argentina impossível. Como exemplo recente desse
potencial imaginário, Chejfec cita o livro El dock, de Matilde
Sánchez, em que o Uruguai aparece como “a outra face inofensiva de um
país, a Argentina, onde o gesto primário da política é sofrer ou infligir
a morte como se se devesse obedecer a algum mandato esotérico ou
religioso”. O Uruguai estaria assim ligado a uma imaginação política que
encontra nele um terreno permeável às comparações, mimetizações ou
camuflagens. Em Del cielo a casa, os uruguaios são um povo com o qual se tem uma irmandade na marginalidade, uma irmandade maior inclusive do que com os próprios compatriotas, cujo olhar se direciona avidamente para o norte. Em outro conto, “Conversación en la terminal”, uma estação na cidade de Minas, ao norte de Montevidéu, serve de cenário para uma conversa entre um gaucho velho e uma senhora de uns quarenta anos que viaja regularmente para uma consulta com o seu psicólogo. “O gaucho velho tinha um continente tranqüilo, como se todos os lugares fossem iguais”, escreve Uhart. Efetivamente o que parece fasciná-la no Uruguai é o fato de ser um lugar como qualquer outro, familiar, sem ostentação, diferentemente da Itália ou da Alemanha, em que se está sob o peso da história e do conhecimento, em que se vive como “um condenado à morte que come e bebe tudo pela última vez”. O Uruguai é um lugar com o qual se pode ter uma intimidade singela como a que surge entre os dois personagens do conto, uma intimidade sem grandes expectativas nem grandes ensinamentos. Um lugar de passagem, mas onde se poderia eventualmente ficar, transformando-o em nossa própria casa.
PALOMA VIDAL nasceu em Buenos Aires, em 1975, e atualmente mora em São Paulo. Além de tradutora e editora da Revista Grumo, é escritora, tendo publicado o livro de contos A duas mãos, em 2003, e participado das antologias 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2004), Paralelos: 17 contos da nova literatura (2004) e A visita (2005).
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