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jorge bucksdricker
prefácio a machado: ou: um catatau de dados
Embora neste caso origem e
justificativa não coincidam inteiramente, não perco de todo o ponto
começando este ensaio pelo fato que o suscitou: leitor omisso durante a
adolescência, tive de recuperar na idade adulta as leituras que não
realizei nos bancos escolares: Graciliano, Machado, Dyonélio, Euclides e
outros tantos. Certamente há vantagens nisso, muitos já o disseram, mas
esse, definitivamente, não é o tema deste ensaio. A questão é que me tendo
voltado tardiamente para estes livros, a leitura não se deu senão em meio
a outras leituras. O contexto, portanto, era bastante outro. Um livro leva
a outro e este a um terceiro até que se chegue a ter uma vaga idéia do
caminho percorrido, um esquema parcial das descobertas que permitiram as
coisas terem chegado ao estado em que se encontram. Talvez a generalização
seja apressada. Mas parece exata para quem se familiarizou à investigação
cuidadosa e, sobretudo, a procurar no antigo a origem do contemporâneo.
Nesta busca pelas leituras perdidas, quando, finalmente, pus as mãos no
volume contendo as obras primas de Machado de Assis (Dom Casmurro e
Memórias Póstumas de Brás Cubas) não soube exatamente por onde começar.
Tivessem as coisas se dado como deveriam e não haveria espaço para
escolhas: a leitura seria definida pela professora. Na dúvida, pus-me a
folheá-los. Como não pretendia ler os dois textos, parecia importante
escolher bem: o mais relevante, citado, subversivo, polêmico, inventivo,
seminal etc etc etc.
Logo de cara, deparei-me com a epígrafe das Memórias Póstumas, que,
diga-se de passagem, abria o referido volume. Surpreendente, para dizer
com o mínimo. Nem de longe lembrava a descrição que eu trazia do
famigerado romance realista (Machado é Realista?). Sem falar na quantidade
de textos contemporâneos que, agora, pareciam pálidos reflexos da
subversão machadiana. O tema deste ensaio, contudo, ainda não é esse.
Começa um pouco depois: no prólogo.
Existe a arte de dizer não dizendo e a de ocultar revelando. Machado é
mestre nas duas. Se a meia página dedicada ao prólogo das Memórias
Póstumas tem uma relevância especial para o estudioso da obra deste autor,
essa relevância deve estar na explicitação deste que é um princípio básico
da sua escritura. Cito Machado: “O melhor prólogo é o que contém menos
coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado.”. Machado, como
sabemos, opta pela primeira via, a da economia. Talvez em função de outra
idéia fundamental sua, explicitada no texto de Dom Casmurro: “Nada se
emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros
omissos.”
Perdoe-me o leitor se algum tema meramente aventado o fez seguir
inutilmente até este ponto do texto. Talvez haja nesse procedimento, de
levantar temas para logo em seguida descartá-los, algum ensinamento do
próprio Machado. Talvez, não; seja mais afim ao ir e vir acadêmico. Afinal
de contas, estamos ainda no quinto parágrafo, as coisas
ainda não podem ser ditas com a devida clareza, sob pena desse ensaio não
chegar nem mesmo a sê-lo.
De fato, este ensaio não versará sobre a obra machadiana. O responsável
por estas linhas, como já o dissemos, só tardiamente se voltou para a obra
deste autor, não tendo lido nem mesmo o clássico texto de Roberto Shwartz:
Ao vencedor: as batatas.
Voltemos, pois, ao prefácio. Há um elemento deste texto que deita luz
sobre muitos importantes prefácios. Senão vejamos: Machado afirma que o
“melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito
obscuro e truncado”. Mallarmé, no prefácio ao “Lance de Dados”, cioso do
que está para ser dito, acaba dizendo já desdizendo-se. Após afirmar na
abertura do prefácio o desejo de que o mesmo não seja lido, Mallarmé pede
que o leitor, que por um acaso o fizer, esqueça rapidamente o então lido.
Nas palavras do próprio (via Haroldo de Campos): “Gostaria de que esta
nota não fosse lida ou que, apenas percorrida, fosse logo esquecida.”.
Paulo Leminski, no Catatau, não chega a tanto; nas poucas linhas da sua
REPUGNATIO BENEVOLENTIAE o autor simplesmente diz se negar “(...) a
ministrar clareiras para a inteligência deste catatau que, por oito anos,
agora, passou muito bem sem mapas.”, desafiando os leitores, ao final, com
um rápido e rasteiro: “Virem-se.”
Se Machado opta pela economia, Mallarmé parece optar pela obscuridade:
talvez a única maneira de dizer algo que “ensina, ao Leitor hábil, pouca
coisa situada além da sua penetração: mas [que] pode perturbar o
ingênuo.”. Quanto a Leminski, este é radicalmente sucinto. Tudo o que o
autor nos deixa saber é de uma ausência: a dos mapas. Ausência esta que,
uma vez explicitada, se não chega a sugerir a vantagem de tê-los, prepara
o leitor para uma falta.
Diferenças à parte, é patente nos três prefácios a busca pelo tom de voz
adequado para dizer aquilo que precisa ser dito sem antecipar ao leitor o
que este deve encontrar por si mesmo. Machado, com sua costumeira ironia;
Leminski, em tom de desafio e Mallarmé, a sério (como cabe a um autor que
está revolucionado a sua arte), preparam o leitor para o que está por vir
ao mesmo tempo que afirmam, num curioso movimento metalingüístico, a
limitação deste curioso objeto literário: o prefácio.
Embora os autores compartilhem uma mesma preocupação, a de preparar o
terreno na medida exata da sua necessidade, os caminhos encontrados para
tal não coincidem. Certamente em função da natureza das obras. Mas não
apenas por isso. A verdade é que pode haver acordo com relação ao
enunciado machadiano, economia ou obscuridade, sem que haja um acordo
pleno quanto ao significado destes termos. O conceito de economia não é
absolutamente evidente; não significa, obrigatoriamente, poucas frases ou
poucas palavras (e quantas seriam poucas?). Isto para não falar na
obscuridade. Obscuro para quem? Com relação a quê?
Nada disso, entretanto, retira a força da síntese de Machado. Economia ou
obscuridade. Nem retira o seu caráter antecipador. Se no modernismo o
fazer poético passou sistematicamente a ser tema da própria poesia,
Machado parece inaugurar os prefácios que tematizam o próprio prefácio.
Temática improvável, não fossem séculos de prefácios óbvios ou, no outro
extremo, obtusos.
Ainda hoje, muitos prefácios são dispensáveis. Meras formalidades. Mas,
nesse terreno, também há exceções. A mais notável é quando o prefácio é,
ele mesmo, parte da obra. Como em Tyrteu Rocha Vianna, que utiliza o
prefácio do seu Saco De Viagem para um irônico pedido de desculpas: “...
se o dr. Austregésilo me tivesse escrito um prefácio, começaria: - as
obscuridades e imcomprensibideses, aliás aparênticas de alguns...es destes
poemas, desculpai-as na verdez da iniciatividade futurística do autor...”
Ou em Oswald de Andrade, que, transfigurado em Machado Penumbra, (e aqui a
obscuridade é sugerida já no nome do nosso prefaciador), abre as Memórias
Sentimentais de João Miramar com uma impagável paródia dos beletristas
tupiniquins e seus imponentes prefácios. Cito Penumbra: “Se no meu foro
interior, um velho sentimentalismo racial vibra ainda nas doces cordas
alexandrinas de Bilac e Vicente de Carvalho, não posso deixar de
reconhecer o direito sagrado das inovações, mesmo quando elas ameaçam
espedaçar nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade
parnasiana. VAE VICTIS!”.
Nestes casos, o prefácio não apenas prepara, ele é obra também. Por certo,
que esse conceito também se estende às Memórias Póstumas. Lá, o prefácio é
igualmente obra. (Lembremos que embora Machado faça certas restrições –
economia e obscuridade – ele não condena todo e qualquer prefácio) E
talvez o mesmo possa ser dito com relação a Mallarmé e Leminski. Os seus
prefácios não são menos obra. A diferença importante é que em Mallarmé e
em Leminski o prefaciador coincide com o autor do livro, enquanto em
Machado a coincidência existe, mas se dá dentro da invenção de um
personagem: Brás Cubas. Já em Oswald, não há coincidência nem mesmo de
personagem. Temos de um lado Machado Penumbra e de outro João Miramar.
Tyrteu, por fim, faz, quem sabe, o movimento mais improvável: escreve de
próprio punho, mas se pondo no lugar de uma invenção: o dr. Austregésilo.
Finalmente, como a história se repete e sempre haverá um Aristarco de
Samos esquecido na Grécia esperando que um Copérnico o ressuscite, um
último exemplo: Dom Quixote. Após descrever as dificuldades impostas pela
tarefa de compor um prefácio para o seu Engenhoso Fidalgo, Cervantes, que
chega a cogitar desistir da obra, relata a solução apresentada por um seu
amigo. Esta consiste, basicamente, em encher, o prefácio, de lingüiça.
Citações em latim, referências a autoridades, nomes inventados, etc etc
etc... Antecipando Oswald, Cervantes compõe um prefácio onde a estrutura
tradicional do mesmo é altamente ironizada. E não é só isso. Um pouco
antes disso é a Mallarmé que ele se antecipa ao dizer (na tradução de
Eugênio Amado): “Só quisera dar-te esta história limpa e desnuda, sem
ornamentos de prólogo e do inumerável catálogo dos costumeiros sonetos,
epigramas e elogios, que soem ser postos no início dos livros”.
A história limpa e desnuda. Sem mapas. Um prefácio que diga o menos
possível. “A obra em si mesma é tudo (...)”. Bastarda ou fidalga, a obra se
basta. Guias, mapas, clareiras, esboços, esquemas, explicações... podem
ficar para depois... Ou não?
JORGE BUCKSDRICKER é
poeta e mestre em epistemologia pela UFSC. Publicou Solstícios (IEL -
2005) e atualmente edita a revista de poesia Ferramentas Errantes além de
trabalhar na equipe de formação de professores da Bienal do Mercosul com
os cruzamentos entre a literatura e as artes visuais.
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