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clóvis bulcão
o barroco é pop
Os rótulos deveriam ser exclusividades das embalagens, mas mesmo em tempos
de tecnologia digital eles ainda podem ser vistos em testas, textos e,
sobretudo, em muitas explicações sobre o comportamento de pessoas,
movimentos culturais, espaços de tempo e outras áreas do conhecimento.
Como involuntariamente faço parte deste caldo cultural, resolvi achar que
nada é mais pop do que o barroco! De fato, nem sei definir o que foi o
barroco, nem quero! Só sei que o presente é uma construção contínua e o
moderno, o pop, é algo em constante evolução. Como ninguém sabe dizer
quando o pop começou, desenvolvi a seguinte teoria: o tempo quando passou
pelo barroco foi fortemente influenciado.
Essa minha visão de mundo começou bem recentemente. Após nove anos de
estudos sobre um personagem do século XVII, o padre Antonio Vieira,
percebi fortes marcas do passado no presente. Assim sendo, tenho feito
sempre a seguinte pergunta: quem nesse início de século XXI pode ser
considerado pop-star? Quase sempre tenho a mesma resposta, a Madonna! De
forma professoral cobro uma justificativa. Ora, ela atrai multidões!
Última pergunta, quem foi a primeira pessoa a atrair multidões em diversas
partes do planeta?
O padre Antonio Vieira é um exemplo de como o mundo mudou pouco nos
últimos 400 anos. Grande orador, o jesuíta luso-brasileiro arrastou
multidões em três continentes. Seus sermões atraíram milhares de pessoas
na África, no Brasil e na Europa (Portugal e Itália). Quando o povo sabia
que a missa seria dita por Vieira, havia a necessidade da presença das
forças da ordem, como nos shows da Madonna. Só isso? Não! Na modernidade do
mundo digital, qual a parte da indústria do entretenimento que foi mais
atingida comercialmente? A fonográfica! Antes mesmo de alguém fazer
sucesso sua obra já é vítima da pirataria. E quem terá sido o primeiro
artista brasileiro vítima dessa prática ilegal? A resposta é a mesma, o
padre Antonio Vieira. Ah, já ia esquecendo, as primeiras edições piratas
de Vieira foram lançadas na Espanha, e ele nem nunca pisou em terras
espanholas.
E quem me autoriza a dizer que Vieira era um autor barroco? Ninguém! Muito
pelo contrário. José Veríssimo, grande estudioso da língua portuguesa,
achava o jesuíta um impostor que “se iludia e iludia os outros com as
próprias frases”. Com a condenação de Vieira, só nos resta o poeta Gregório
de Matos. Como também nasceu no século XVII, é considerado um pândego.
Claro, o poeta era visto como “homem solto, sem modo de cristão”.
Abandonou seu cargo eclesiástico, pois lhe cobraram o uso de batina e
tonsura. Sua visão sobre Salvador, a “mãe universal”, foi descrita no
poema Define Sua Cidade –
De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver
um furtar, o outro foder.
Isso é antiquado ou moderno, barroco ou pop?
Ainda no século XVII temos outros exemplos de situações bem parecidas com
as dos nossos dias. O escritor francês Frederic Pagés defendeu uma tese
bem original sobre a cidade de Amsterdã. Diz ele que o narco-turismo em
terras holandesas começou neste longínquo século. E mais, ele até disse
quem foi a pessoa que inaugurou esse tipo de viagem, o também francês René
Descartes. Na Holanda, sempre segundo Pagés, havia muito cânhamo, um tipo
de maconha que era utilizado na calefação dos barcos comerciais. Logo, os
famosos coffee-shops holandeses são herdeiros de algo muito mais velho do
que pode supor a nossa vã filosofia!
Mudemos de país, mas continuemos no barroco. O nosso destino é o México.
No Brasil poucos conhecem a fênix da América, A Décima Musa, a sóror Inés
de la Cruz. Considerada a maior escritora barroca de seu país, Inés era
uma mulher que teve um comportamento no mínimo atípico para o seu tempo.
Após optar de forma surpreendente pela vida monástica, ela conseguiu
transformar o parlatório (sala para receber as visitas) de seu convento no
maior ponto de encontro de intelectuais mexicanos.
Seu prestígio era tanto que a vice-rainha Maria Luísa de Lara y Gonzaga
passou a ser sua mecenas. As duas viraram boas amigas. A amizade, segundo
Octavio Paz, biógrafo da sóror, “transformou-se rapidamente num sentimento
de tal modo apaixonado que só pode ser chamado de amor”.
Muito barroco!
Uma grife! Imaginar que as marcas, as grifes que alteram o preço dos
produtos, verdadeiros símbolos de modernidade são coisa do capitalismo
moderno realmente não conhece o barroco. Peguemos uma marca brasileira bem
conhecida, Aleijadinho. Como todo brasileiro que freqüentou a escola, eu
sempre achei que esse artista das Minas Gerais fosse apenas um grande
artesão que superou seus problemas físicos e ganhou fama histórica. Uma
meia verdade! Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi esculpido como
tendo esta forma pelo seu primeiro biógrafo. Essa versão foi realçada, no
século seguinte, pelo modernista Mario de Andrade.
Agora, a professora Guiomar de Grammont revela que Aleijadinho era uma
grife. Ele dirigia uma oficina e contava com ajuda de seus escravos. Todas
as obras levavam a sua assinatura, independente de quem as produzia.
Exatamente como sofisticados ateliês de alta costura em Paris, Milão e
Nova Iorque. A princípio essa informação deveria ser bem recebida, mas o
mercado de artes brasileiro não reagiu bem. Imaginemos um colecionador de
imagens de Aleijadinho lendo o livro de Grammont e na seqüência imaginando
a depreciação do preço de seus objetos. Aleijadinho se comportava
exatamente como grandes artistas de seu tempo. Rembrandt também assinava
todos os trabalhos que nasciam em seu atelier, independente de quem realizava
a obra.
No mesmo estudo sobre o Aleijadinho são listadas as suas influências
artísticas. Parece óbvio colocar neste rol os países europeus, Portugal,
França, Alemanha, Países Baixos e Itália. Só que existem em sua obra
claros aspectos orientais. Uma inspiração vinda da China ficou esculpida
em sua obra.
Se tirarmos os escravos, o que sobra é muito pop.
Como estamos no começo de uma crise financeira de repercussão mundial,
vamos voltar no tempo. Retomemos a modernidade barroca. Pois o padre
Antonio Vieira acreditava que a língua portuguesa um dia dominaria o
mundo. Na verdade ele tinha como certo que os portugueses estavam
destinados a comandar um super-império. Ele não só pensava assim, como
bolou um plano de conquista do planeta. O plano pressupunha a repatriação
dos capitais de judeus espalhados pelo mundo e o fim da Inquisição. No
século XVII, o comércio era dominado por judeus lusitanos, ou seja, a
língua que comandava os grandes negócios internacionais era o português.
Essa união era tão forte que em todo o mundo as palavras português e judeu
eram usadas como sinônimos.
Como se pode perceber, o plano não deu certo! A Inquisição venceu e os
judeus lusofônicos foram atraídos para outras praças mais seguras. O
império que fôra rascunhado pelo padre Antonio Vieira acabou sendo erguido
na América do Norte. Eu sempre fico com uma certa dor no coração quando
lembro que Duarte Lopes financiou os exércitos de libertação dos EUA na
luta contra os ingleses. A família Mendes Seixas foi responsável pela
fundação de dois ícones do mundo moderno: o Federal Reserve e a NYSE (a
bolsa de valores de Nova Iorque). Claro, todos eles eram judeus e suas
famílias chegaram a morar no Brasil.
Teria tudo para ter sido na pátria amada, mas acabou acontecendo nos EUA! Essa
parte parece ser pop, mas não é muito!
Tenho defendido a idéia de que o barroco pode ser popular. Ninguém precisa
ser culto, erudito e ter uma enorme disposição sobrenatural para ler os
textos desse período. Concluo com uma frase bem barroca de Vieira: Se no
passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no
passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do
passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Terna e eternamente pop!
CLÓVIS BULCÃO
é escritor e historiador, autor dos romances A quarta parte do mundo,
A
Marquesa dos Santos, Leopoldina – A princesa do Brasil,
Pequeno dicionário
de personagens da literatura brasileira e é um dos autores do livro
Corrupção 18 contos. Lançou recentemente Padre Antonio Vieira:
Um esboço biográfico.
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