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mestre eckhart
das obras interiores e exteriores
Sermão XVI
Diz um mestre
Diz um mestre: se faltasse qualquer meio
(separador) entre mim e o muro, então estaria eu junto ao muro, mas não me
acharia dentro do muro. Nas coisas espirituais, não é assim. Porque uma
coisa sempre se encontra dentro da outra; o que recebe é o que é recebido,
pois não recebe nada fora de si mesmo. Esse é um assunto sutil. A quem o
compreende já não fazem falta os sermões. Mas direi um pouco mais sobre a
imagem da alma.
São muitos os mestres a opinarem que esta imagem nasceu da vontade e do
conhecimento, mas não é assim; ao contrário, digo que esta imagem é a
expressão de si mesma sem a vontade e sem o conhecimento. Trarei ao seu
alcance uma semelhante: que ponham um espelho diante de mim: me reflito no
espelho, queira-o ou não, sem vontade nem conhecimento de mim mesmo. Essa
imagem reflexa não provém do espelho e tampouco provém de si mesma, essa
imagem se fundamenta mais que tudo naquele de quem tem sua essência e sua
natureza. E quando o espelho já não se acha diante de mim, não me reflito
mais nele, porque eu mesmo sou a imagem.
Outro exemplo mais: quando uma rama brota de uma árvore, leva tanto o nome
como a essência da árvore. Aquele que brota é o mesmo que permanece
dentro, e aquele que permanece dentro é o mesmo que brota. Assim, pois, a
rama é a expressão de si mesma.
O mesmo digo também da imagem da alma: aquele que sai é o mesmo que
permanece dentro, e aquele que permanece dentro é o mesmo que o que sai.
Essa imagem é o Filho do Pai, e essa imagem sou eu mesmo, e essa imagem é
a sabedoria.
Quem o compreende que não se preocupe!
Sermão XXIII.
Das obras interiores e exteriores.
(Ponhamos o caso em) que um homem quisesse ensimesmar-se com todas as suas
potências, as internas e as externas, e nesse estado se achasse de tal
modo que em seu interior não tivesse nenhuma representação nem impulso
forçoso algum (que o fizesse obrar - operar), ele se
encontraria, pois, sem nenhuma atividade, nem interna nem externa; aí
então se deve observar bem se, estando assim as coisas, (o homem) não se
sente impulsionado espontaneamente a obrar.
Porém, se ocorre que não é atraído por nenhuma obra e também não tem gana
de fazer nada, ele deve obrigar-se à força a (empreender) uma obra, seja
essa interior ou exterior – porque o homem não deve contentar-se com esse
nada por melhor que lhe pareça ou seja – isso (há de ser) para que ele
aprenda a cooperar com o Espírito quando (noutra ocasião) se achar
sob uma forte pressão ou coação (por obra divina) e assim de maneira tal
que melhor possa ter a impressão de que o homem, em vez de obrar, é
obrado. Não se trata de que esse deva fugir, ou esquivar-se, ou
destoar de seu interior, senão justamente que dentro dele e com ele e a
partir dele aprenda a obrar, fazendo que a intimidade abra passagem
à atividade e que se possa conduzir a atividade à intimidade, de sorte que
se acostume a obrar sem coação. Pois há que se dirigir o olhar para
essa obra íntima e obrar a partir dela; seja em leitura,
seja fazendo uma externa. No entanto, se a obra externa está por destruir
a interna, há que se dedicar à interna. Mas, se ambas puderem existir em
unidade, seria isso o mais próprio para que assim cooperássemos com
o Espírito.
Agora, uma pergunta: Como há cooperação ali onde o homem se
despojou de si mesmo e de todas as suas obras;(...) ali, pois, onde se vão
desmantelando as imagens e as obras, ou qualquer obra que possamos fazer?
Uma resposta: Uma só obra nos silencia efetivamente e por excelência, esta
é a anulação de si mesmo. Contudo, por maiores que sejam esta
anulação e esta renúncia de si mesmo, elas permanecem a ser
indevidas se o Espírito não as integraliza dentro de si mesmo. Só quando o
Espírito faz humilde ao homem por meio do próprio homem, a humanidade é
completa (plena) e suficiente. E só assim e não antes se faz o que é
suficiente e devido para o homem; só assim e não antes.
Traduzido por Ronaldo Ferrito
MESTRE ECKHART (JOHANNES
ECKHART) teólogo, filósofo e religioso alemão, viveu entre 1260 e
1327. Foi dos últimos alunos de Alberto Magno, fazendo-se seu condiscípulo
ao lado de Tomás de Aquino na Universidade de Colônia. Considerado um
dos fundadores da filosofia em língua alemã e postumamente julgado herege
pela Igreja Católica, seu pensamento influenciou muitos outros pensadores,
entre os quais Julian de Norwich, Teresa de Ávila, São João da Cruz,
Nicolau de Cusa, Martinho Lutero e Hegel. A partir do século 19, com a
redescoberta de seus manuscritos e a diminuição da perseguição por parte
da Igreja, sua imagem se refaz, a ponto de hoje ser reconhecido como um
dos mais importantes representantes do misticismo cristão. É autor do
Livro da divina consolação, entre outros, e seus sermões foram
traduzidos para diversas línguas. Os dois fragmentos acima são traduções
inéditas em língua portuguesa.
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