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elizabeth muylaert duque estrada
“a literatura é a coisa mais interessante do
mundo, talvez mais interessante que o mundo”
O que poderia Derrida querer
dizer com esta afirmação? Qual a relação entre mundo e literatura? Como se
poderia entender o caráter desta “interessância” a que ele se refere? Só
se pode responder a estas questões através de um talvez, um talvez que não
se refere a uma dúvida, uma reticência ou mesmo uma especulação; como o
talvez que diz que as coisas, inclusive nós, podem ser assim como elas
aparecem no mundo, o mundo que está aí, ou talvez, ao contrário, elas
possam ser de outro modo, resistindo ou contestando a lógica deste mundo;
ao contrário, o talvez a que me refiro diz que não há nada de concreto que
justifique o mundo, porque não se pode afirmar uma essência, um
fundamento, uma causa primeira que explique ou justifique o mundo tal como
ele se põe diante de nós, tal como ele nos envolve. Um talvez, portanto,
que diz respeito menos a uma cautelosa aproximação do real e mais a uma
abertura de outros mundos possíveis, menos ao aparecer de algo
pretensamente concreto, efetivo, e mais à promessa de que tudo sempre
poderia ser de outro modo.
Uma pista para compreender a afirmação de Derrida – “a literatura é a
coisa mais interessante do mundo, talvez mais interessante que o mundo”:
se na primeira parte da afirmação, a interessância da literatura é algo
que se encontra inserido no mundo, na segunda parte, o talvez parece
arrastar esta interessância para um momento anterior ao próprio mundo.
Mais especificamente, o que isto tem a ver com a literatura, esta estranha
instituição na qual, diz Derrida, pode-se dizer tudo sobre qualquer coisa?
Nela, a força do talvez seja, talvez, reencontrada em toda a sua potência:
o direito garantido ao autor de dizer tudo sobre qualquer coisa sem
nenhuma causa ou fundamento que legitimem tal liberdade, tal direito
significa, antes de qualquer insinuação de inconseqüência ou
irresponsabilidade, a energia de uma instituição que funda a si mesma a
partir e através de uma força, a um só tempo, estabilizadora e
desestabilizadora; aliás, tal como as coisas do mundo, cuja estabilidade
supõe, sempre, a força desestabilizadora de um talvez. Um talvez em que
toda experiência de familiaridade se vê ameaçada, afinal, tudo é assim
como é, mas poderia sempre ser diferente. Para Derrida, a literatura é uma
instituição que encarna exatamente este aspecto duplo e paradoxal: se ela
tem como princípio inalienável o direito, e portanto a liberdade, de dizer
tudo sobre tudo, este princípio diz respeito não somente a uma exigência
de criação, mas igualmente à intolerância incondicional de qualquer tipo
de auto-confirmação e auto-preservação. É assim que a própria autonomia e
autoridade da questão da tradição metafísica – a pergunta “o que é?” –
sempre à procura de uma essência, de um fundamento, é abalada pela
literatura. Pois na questão “o que é a literatura?”, toda a atenção se
desvia do objeto, dela, da literatura, que, a princípio, deveria
justificar-se diante de uma exigência epistemológica, estética ou
ético-política, para colocar em questão a legitimidade da própria questão
“o que é?” É que a sua força desestabilizadora – que é a sua liberdade,
por princípio, irrestrita e inalienável – provoca um deslocamento do que
se pergunta na pergunta “o que é?” – não se trata mais de uma resposta
para a pergunta “o que é?”, mas de uma indagação sobre a estrutura de um
talvez que se antecipa e possibilita esta pergunta, colocando em jogo uma
série de elementos, tais como as suas condições e estratégias discursivas,
o lugar e quem faz tal pergunta, etc. Se, deste modo, ela, a literatura
faz com que a pergunta “o que é?” desrecalque os seus pressupostos, cabe
perguntar que lugar senão o não-lugar seria o seu lugar. A sua suposta
irresponsabilidade, com a sua liberdade de dizer qualquer coisa sobre
tudo, vem incidir diretamente sobre o processo de formação de todo
discurso que encobre a força do talvez que lhe antecede e reivindica para
si uma autoridade sobre aquilo a que se refere. Não que ela, a literatura,
venha abolir a referência num desejo alucinante, autista e desmedido de
produzir relatos, mas sim a pretensa autoridade e verdade inabaláveis de
toda estrutura referencial.
Sem o poder e a vontade de dizer a verdade, ela é o talvez do talvez de
tudo o que há no mundo, e por isto talvez seja, como quer Derrida, a coisa
mais interessante do mundo. E isto porque talvez ela preserve, mais do que
qualquer outra instituição, a estrutura da promessa, do novo, do outro,
enfim, do porvir. Talvez seu não-lugar re-situe a própria experiência
política, o fazer e o pensar político; a sua “interessância” se dá na sua
relação dissimétrica com tudo aquilo que, na ordem do discurso, poderia
ser reunido, por exemplo, sob o título de “verdade”, “identidade”,
“intencionalidade” ou “legitimidade institucional”. Sem a pretensão de se
constituir como uma crítica, que sempre pressupõe um programa, uma
projeção, enfim, uma refundação ou elevação de uma ordem injusta, o fazer
literário, assim compreendido, vem problematizar tudo aquilo que quer se
passar como auto-legítimo ou natural e, deste modo, promover sempre
aberturas ao devir.
Se fosse possível formalizar a estrutura do literário em geral, tal como
Derrida a entende, pode-se dizer que tal estrutura é regulada pela “lógica
do não aparecimento”: toda narrativa, todo relato, ficcional ou não, é uma
relação com aquilo que ela narra. Nesta relação, tanto o relato, a
narrativa, quanto o relatado, o que é narrado, não aparecem em sua
presença efetiva. Mas é exatamente este não aparecer que não somente
estrutura a narrativa, mas também impulsiona o desejo sempre renovado de
lê-la, interpretá-la, enfim, dela se apropriar. Mas o que importa aqui é
que, para Derrida, este não aparecimento é estrutural a toda narrativa e
não apenas à narrativa literária. Assim, por exemplo, em toda narrativa ou
discurso que se refere a questões relacionadas à identidade, seja ela
‘nacional’, ‘racial’ ou ‘linguística’ etc, a tensão entre o aparecimento e
o não aparecimento encontra-se sempre já operante: onde localizar a
presença efetiva de algo como a ‘identidade brasileira’ ou a ‘identidade
linguística’? – nunca ninguém as viu, as tocou, as teve em suas mãos – e é
por isto mesmo, por nunca terem estado presentes, por não existirem em si
mesmas, e, portanto, por não se encontrarem disponíveis à apreensão
teórica ou à manipulação prática, que elas – tais identidades – podem ser
objetos de discursos sobre a ‘identidade brasileira’ ou ‘identidade
linguística’; para Derrida, de alguma forma, só se fala sobre o que não
aparece, sobre o que nunca está disponível, existente em si mesmo. Deste
modo, o termo mais apropriado para dar conta do que aqui se encontra em
jogo não é exatamente a ‘identidade’, mas o que ele chama de
identificação, ou seja, um processo de contínua relação com uma situação
ou condição – a brasilidade, a língua portuguesa – com a qual desde sempre
nos reconhecemos; uma situação ou condição, contudo, que nunca foi, é ou
será apreendida, apropriada, tomada em nossas mãos; e isto não porque ela
seja algo que nos escapa, mas porque ela nunca existiu, existe ou existirá
“enquanto tal”, como algo em si mesma. Assim, não apenas a experiência de
todo o discurso sobre uma qualquer ‘identidade’, mas igualmente tudo o que
envolve a construção, a legitimação e a autoridade e mesmo a verdade deste
discurso pode e deve ser problematizado.
Esta estrutura ‘conceitual’ do pensamento de Derrida aponta um outro
caminho para o pensar/fazer político; um caminho que quer evitar tanto o
valor de uma objetividade externa ao discurso, ou seja, o ideal de falar
das coisas naquilo que elas são independentemente do discurso que se faz
sobre elas, quanto o valor de um criacionismo do discurso que não
reconheceria nada além dele mesmo (a deformação do famoso “não há fora
texto”). O que há, sim, é uma problematização, uma complexificação da
referência: por um lado, ela potencializa as questões em torno da
‘identidade’ pelo prisma da identificação, sem, por outro lado, cair na
idolatria identitária. A idéia de identificação vem, portanto, deslocar o
conceito de identidade também naquilo que poderia parecer o seu aspecto
mais plástico: ou seja, a idéia de uma multiplicidade de identidades em
constante mobilidade. O problema aqui está no fato de pensar tais
identidades como aquilo que Derrida chama de ‘pequenas células narcísicas’,
ou seja, estruturas mínimas de referência a si, garantidoras de uma
auto-certeza e, conseqüentemente, de uma inabalável reprodução do mesmo.
Aqui o modelo crítico tradicional – aquele que se orienta por um
fundamento garantidor de justiça e emancipação para todos – dá lugar a um
outro tipo de pensamento, no qual o que é decisivo é a problematização de
tudo o que, na ordem do discurso, pretende ocultar o seu caráter de
construção e ser percebido como ‘natural’. Em outras palavras, o que está
em jogo aqui é o resguardar incondicional do caráter radicalmente político
de tudo o que se tece, destece e retece pelos fios da linguagem. A
radicalidade do político que se aqui percebe encontra-se no fato de que
agora não poderá mais deixar de ser problematizado aquilo mesmo que deve
ser problematizado: o ‘quem’ e o ‘quê’ de todo discurso, seus pressupostos
de toda ordem, epistemológicos, econômicos, jurídicos, políticos, éticos,
suas instâncias representativas, legitimadoras, suas estratégias
discursivas, etc.
Tomada em sua radicalidade, na força afirmadora do talvez que lhe é
inerente, a literatura – esta estranha instituição que consiste na
liberdade de dizer tudo sobre tudo – evidencia sempre o logro de toda
idolatria identitária, ao mesmo tempo que possibilita um potencial
político transformador de todo processo de identificação. Percebendo-se
nesta perspectiva, todo discurso identitário só pode se assumir como uma
estratégia provisória, o que, de modo algum, significa uma limitação ou um
rebaixamento, mas, antes, é somente assim que ele se afirma em sua real
dimensão política, tornando-se, como diz Derrida, digno do nome
“política”.
ELIZABETH
MUYLAERT DUQUE ESTRADA é jornalista e professora do curso de
Especialização em Literatura Brasileira da PUC-Rio. É Doutora em Estudos
de Literatura pela PUC-Rio, onde defendeu a tese Devires autobiográficos:
a atualidade da escrita de si.
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