O maior
herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs
de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os
brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a
superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o
mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais
pertence. Éramos a nação Senna numa bólide a 300 Km/h. Até o muro da
Tamborello, em Imola.
A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os
pós-modernos alardeiam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por
um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi
o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e
abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca
mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria
preenchida.
O piloto Senna é, aqui, a necessidade da nação de construir ídolos e neles
se apegar. O que aconteceu, entretanto, quatro dias depois daquele adeus
foi menos sentido nacionalmente e poucos se tocaram com o desaparecimento
do nosso outro herói. Mario Quintana, o veloz piloto fechava o seu baú de
cata-ventos, viajava sob a onda melancólica da pós-morte daquele. Poucos o
leram nesse país de não-leitura, no qual os heróis literários são
seqüestrados por um sistema educacional anti-heróico.
Quintana foi obnubilado pelas lacunas da vida real, pela emoção imagética
e sonora da máquina de sonhos, a televisão. Nós que o líamos, os
privilegiados do sistema, éramos embalados pelo tiro-certo-veloz de seus
poemas tão líricos quanto bravos, de tez macia e de ossos inquebráveis, de
olhos meigos e de calcanhares que, além de asas, vestiam o velho garrão de
touro. Os heróis óptico-ilusórios passarão. Nesse número da Confraria
habitarão os passarinhos bebericando em um bar de saudade, trazidos por
Moacyr Scliar.
Enveredamos, no momento em que a Confraria do Vento também se torna uma
editora de papel, pelos descaminhos e desquestões da escrita, virtual ou
real, e atravessamos a terra rumo à estação Austrália. Seguimos o nosso
rumo erguendo velas ou pedalando, voando rasteiro ou nos perdendo no
infinito em expansão. Se para Fukuyama acabou a história e esperamos o
pós-humano, para nós sempre haverá histórias e tudo que for pós será
também humano. Não esqueçamos, todavia que a única força regente é a força
gravitacional, essa que diz: todos os corpos tendem a ficar unidos, embora
separados. Unamo-nos... mas sem gravidade.
os editores