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márcio-andré


proposta para se pensar as nuvens

 

 

 

Minha maior ocupação ultimamente, como escritor, tem sido a confecção de poemas sobre casas, fruto de uma reflexão que me tem absorvido com grande intensidade. Para isso tenho partido do princípio, cada vez mais evidente para mim, de que as casas tenham uma relação muito intima com o céu. Essa relação não me parece nova, mas uma imagem cuja ancestralidade perpassa a própria memória de alvenaria das casas. Imagino que algum ou muitos povos antigos já tenham pensado nela, ou melhor, tenham-na fundado. Se nas Metamorfoses Prometeu esculpiu o homem com uma terra ainda fresca de céu, foi essa mesma terra que o homem escolheu para edificar sua moradia. Os tijolos, cada um deles, carregam poeira das estrelas, por isso podem ser empilhados como casas. Alguns pensadores refletem o céu a partir da limitação e do desejo do ilimitado, uma medida pela qual o homem se percebe homem e compreende um destino. Esse sentido divino fez Akhenaton querer expandir sua capital em direção aos céus. Nem para o Norte, nem para o Sul. Ainda nas Metamorfoses, por ser feito de matéria celeste, o homem, ao contrário dos animais, é o único a poder andar de pé e olhar os astros. Aos animais, por não compartilharem dessa matéria, só resta olhar para baixo. A rigor, o homem é o único animal que constrói casas, propriamente falando. E é nesse destino do homem de construir e habitar suas casas que se configura sua humanidade. O céu sustenta as construções humanas em seus alicerces de sonho.

Pensar as casas e suas extensões corpóreas, as ruas, o bairro, a cidade, me faz naturalmente querer caminhar pelos caminhos não usuais deste negativo celeste desenhado no chão. Sigo, à procura dos lugares pouco explorados. Gosto de observar as ruas, principalmente as do subúrbio, suas construções sem origem no tempo, suas casas-enigmas, suas fábricas natimortas, suas favelas na linha do trem, suas vidas começadas de súbito e terminadas em milhares de direções. É certo que a questão da violência dificulta o trânsito por alguns desses lugares. O risco de assalto ou de coisa pior limita os passos e o próprio prazer de andar a esmo. As grades, as ruas com cancela, os condomínios fechados, os shoppings, por sua vez, limitam os espaços públicos a ponto de se pensar que um dia nenhum lugar deixará de ter muros. Mas creio só ser possível ter uma compreensão real da vida das casas se conseguirmos fugir das zonas centrais, onde tudo já foi por demais pensado e sentido e já tem um nome ou uma imagem formulada. Tudo que possa ser vivido nesses lugares, por exemplo, em Ipanema, no Rio de Janeiro, será sempre a partir de imagens repetidas e caducas. Os sentimentos já são previsíveis, as experienciações, programadas. Andar por Ipanema não importa para nós: ali não há ruas, somente estereótipos num bairro-estereótipo. Os lugares mais organizados não passam de cópias mal feitas dos grandes modelos globalizados de cidade. As ruas regradas com sua assepsia visual e étnica, seus transeuntes assépticos, usando roupas assépticas e pensando assepticamente. Existem lugares tão clean e iluminados que machucam os olhos. É preciso pensar o céu dos lugares deslocados de qualquer privilégio de centralidade, dos lugares “caóticos” e mal iluminados. É preciso aceitar o fato do “desequilíbrio” ser a estância mais propriamente real do real. Amar o belo é simples, pois já está pronto. A luz se faz ver, não é preciso nenhum esforço para chegar até os olhos. Amar o que não é belo ou luminoso (ou pelo menos o que normalmente não é considerado como tal) é que consiste um verdadeiro desafio e aí, sim, o desejo de superá-lo pode ser considerado amor. Mesmo a violência urbana que hoje impera, os próprios problemas sociais, se radicaliza, em certo sentido, pela nossa ignorância geográfica dos lugares “periféricos”. Ao conhecer a geografia conhecemos o corpo de terracota e argila a revestir o outro. A questão vai muito além de um mero conhecer e catalogar o alheio. Falo de um conhecer-se. Tratar o lugar não como paisagem, mas como um organismo pelo qual respiramos.

Os bairros – e falo propriamente dos bairros autênticos (no Rio consideraria aqueles da Zona Norte, Centro e alguns, raríssimos, é verdade, da Zona Sul) – guardam, cada um deles, o Universo segundo sua própria topografia. Cada uma de suas vias, vielas, passagens, caminhos, praças e casas oculta um enorme potencial de ser sonhada. Mas ter um olhar mais atento para as ruas e se perguntar qual critério elas usam para decidir para onde vão implica ter um maior compromisso com o espanto. O trajeto dos ônibus cria combinações de delírios. Mas e os trajetos não feitos? A sinuosidade das pistas, os desníveis das calçados, as construções desordenadas, os viadutos superposicionados, os sobrados e os muros trepados, tudo isso é mais que mero acaso de uma necessidade de subsistência habitacional. É uma escrita para quem a saiba ler. Mas ler a fundo um lugar exige que nele vivamos por algum tempo – exige que conheçamos cada amanhecer e anoitecer vistos das dobras de suas esquinas. Em sua impossibilidade, sobra-nos a chance de observar: é preciso caminhar a pé, atravessar cemitérios, zonas industriais, terrenos baldios, ou meramente ruas calmas e portas de comércio, para que a sintaxe das casas perfaça uma sintaxe das ruas e, então, das cidades – todas são cidades escritas sob o céu. Mas é preciso andar várias vezes numa mesma rua para compreendê-la no todo. Ela nunca é a mesma quando novamente a atravessamos, exceto na rotina de quem a atravessa constantemente. Cada momento de um lugar é um outro lugar. Uma rua sob nuvens cinzas é muito mais larga que esta mesma rua num dia de sol. Quando o sol está muito intenso chegam a faltar algumas casas.

Poderia citar alguns bairros pelo Rio de Janeiro com vocação para serem sonhados. A princípio recomendo todos aqueles à beira das linhas de trem, com sua parcela de ancestralidade incompleta. São bairros antigos com casas antigas, mas não como a Glória ou o Centro. São incompletos em seu sentido de experiência. É como se tudo ali tivesse sido vivido pela metade, separado pela linha do trem. Ou o bairro do Caju, tomado por depósitos, armazéns e um enorme cemitério. É possível encontrar pequenos aglomerados residenciais, ou mesmo uma histórica casa de banhos, vivendo da lembrança de quando o bairro era um balneário paradisíaco. A modernidade dos navios e guindastes destruiu suas praias, para menos de 50 anos depois deixar tudo largado e abandonado como brinquedos velhos. Ou o bairro de Jardim América, com a doentia relação que as quadras habitadas desenvolveram com o parque industrial à volta. Ilhotas de civilização separadas por longas ruas de muros sem casa. Ou Piedade, onde um mercado foi construído em volta de uma casa, deixando-lhe somente um longo labirinto até o portão. Ou municípios periféricos e nada turísticos como São Gonçalo, por onde passa uma tênue linha de trem bem no meio das calçadas, das praças, dos quintais; e Caxias, com um centro que nos remete a uma outra possibilidade de qualquer cidade formada às pressas.

Depois de algum tempo sonhando casas, experiência própria, se começa a perceber a existência de um lugar por trás da cidade onde não se consegue chegar, escondido entre bairros e lembranças paralelas ao presente. Penso nele como a soma potencial de todos os lugares esquecidos. Numa recente descoberta, imaginei ter encontrado sua localização física. Foi sem querer que descobri o bairro da Saúde, ali no Centro. Não que fosse algo totalmente desconhecido para mim, mas, além de algumas caminhadas pela Sacadura Cabral, umas duas histórias e uns bares que visitei, era realmente muito pobre o meu contato com aquele Morro da Conceição, o qual eu nunca havia tido a curiosidade de subir. Imaginava, por ser um bairro do Centro, não poder oferecer nada de novo. O surpreendente foi a descoberta, ali, enfiado entre a Rio Branco, a Marechal Floriano e o Cais do Porto, ou seja, num dos centros mais centrais do Centro, de um bairro “fora” do Centro, tão antigo que mal se pode lembrar de sua existência. Um lugar lúdico, atalho para lugar nenhum. Surpreendo-me (uma mancha imperdoável em minha reputação de conhecedor do Centro) ao pensar como pude olhar tantas vezes aqueles becos e sobrados sem me dar conta de aonde me levariam. Falo de um outro lugar, radicalmente diferente do lugar à volta. É uma espécie de Santa Teresa sem glamour, com duas ou três ruas calmas e casinhas seculares, sufocadas por edifícios de mil metros de altura. Subir a ladeira João Homem, entrando ali pela travessa do Liceu, foi como se sentir estrangeiro na própria terra. Ou um personagem do realismo fantástico, conhecendo as portas por dentro da cidade. Nesta ladeira, o sentido aéreo das casas, parece ser mais evidente, pois a rua inteira paira sobre os edifícios.

De qualquer maneira sei que não é ali aquele lugar por trás da cidade. Na verdade, talvez nunca o encontre, pois é um lugar no qual não se pode estar completamente. Talvez o atravessemos um pouco a cada bairro que visitemos. Um enigma das próprias ruas.
 

Decifra-me ou te devoro
 


Quando criança entendia equivocadamente esse prenúncio do enigma da Esfinge como o enigma em si, motivado, talvez, pelo pronome -me. Imaginava a própria esfinge se perfazendo enigma ao pronunciar a frase. Decifrá-la, portanto, era não responder às perguntas posteriormente feitas, mas tentar desvendar o seu sentido de esfinge através dessa frase decifra-me ou te devoro. Uma espécie de meta-enigma cíclico que apontava para dentro de si mesmo. Algo realmente assustador. Como encontrar nessa frase uma resposta à frase, logo à existência da esfinge? As casas são para mim esse enigma onde sua presença propriamente já constitui o enigma. Casas, suas singularidades, seus mistérios, suas gerações de moradores, seus cômodos, as ruas e os bairros a volta, são enigmas que nos devoram. Seu apelo, evocado e invocado pelo nome, pela vocação em deglutir, gestar e conceber, é um apelo a ser desvendado. Esse enigma não é um paradoxo – não existem paradoxos. Paradoxo é uma palavra inventada para suprir nossa incapacidade de entender a ambigüidade e o absurdo do mundo. Um paradoxo só existe dentro de um pressuposto lógico e causal. As casas construídas de matéria uraniana não percorrem os caminhos da causalidade. Seu vigor não está no que é, mas no que deixa de ser. Está na própria fronteira que cria no espaço em torno de nós e seus deslocamentos temporais (simploriamente, uma casa nada mais é que uma parede dividindo dentro e fora, quintal a quintal). Pensar as casas fora da mera edificação funcional e técnica é a única maneira de tentar criar o que eu chamaria de uma poética das casas. Muito mais que tornar as casas – ruas, bairros etc – obras de arte, essa poética implicaria uma transformação da vida, tirando-nos de nosso papel passivo na rotina das cidades para nos tornar ativos poetas do cotidiano. Essa poética não se baseia numa sociologia urbana, mas se faz pela leitura da materialidade das casas, reenviando-as ao seu sentido original: compreendê-las é compreender o céu sobre nós, logo, compreendermo-nos.

 


MÁRCIO-ANDRÉ é poeta, contista e músico, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita a revista literária Confraria. Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com 


 

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