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Se o poeta Petrarca amava tanto os louros

é porque estes são bons para as salsichas

— Leonardo Da Vinci

(personagem de O Código Da Vinci)



Andando na rua, gosto de ver meu reflexo nas vitrines. Mais que uma questão de vaidade (admito que não deixo de dar um confere no cabelo) gosto de localizar o que sou se movendo no onde estou. A poeticidade de nossa própria presença na realidade em seu espaço possível de deslocamento e represencialização. É interessante visualizar nossa própria existência poética, que, por ser poética, já não é existência, mas uma não-existência, no instante em que nos inserimos, não só socialmente, mas concretamente, na sintaxe da realidade, logo e, enfim, existencialmente. É curioso perceber, nesse instante de auto-descoberta contínua, o milagre de ser indivíduo e, apesar disso, parte do todo. Aliás, óbvio, um é impossível sem o outro. É justamente essa separação epistêmica entre o individuo e o meio (meio unicamente possível pela soma potencial dos indivíduos) que nos desloca de nossa poeticidade radical. Ou seja, ser um homem social é ser poético no instante em que se deixa de sê-lo. Sê-lo para perceber–se deixando de sê-lo. Fundar-se para tornar-se fundado. Assim, cada vitrine é um olho da cidade, esse grande irmão que, ao avesso, nos faz observar a nós mesmos, pequenas e complementares maneiras de ser o seu próprio corpo, cidade. As vitrines são mais que expositores, são um espelho, a cidade ao avesso, onde são as ruas que caminham sobre nós.

 


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Sou um ser elétrico, a transpassar, por etapas, as barreiras invisíveis do vácuo. Às vezes consigo perceber os átomos agindo minha presença.
 


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Anos atrás, algum órgão científico ou de imprensa, chamou a atenção para o perigo do lixo orbital: sobras de satélites, pedaços de foguetes e todo um apanhado de porcarias laminadas a gravitar em torno da Terra. Perigo desconhecido para o equilíbrio do planeta, perigo real para os futuros astronavegantes. Assustava esse ferro-velho silencioso, girando sozinho sem nunca enferrujar. Imaginava-se como seria a órbita terrestre dali a alguns anos, um verdadeiro cemitério no vácuo, correndo a milhares de quilômetros por hora, sobrevoando nossas cabeças várias vezes ao dia. Mas eis que, apesar de Marcos Pontes, as viagens espaciais hoje estão cada vez mais raras e eis que um outro cemitério é cavado bem mais próximo de nós, sem que percebamos. A tecnologia de promoção pessoal avançou muito mais rápido que a tecnologia de foguetes. As astronavegações são caras e, numa sociedade global, onde a expressão tornou-se moeda de troca, caminho forçoso a garantir a condição de existência ao indivíduo, uma outra necrópole se forma milhares de centenas de vezes mais rápido que aquele lá no espaço. Cria-se, a cada dia, milhares de blogs, milhares de perfis no Orkut, milhares de cadastros e fichas virtuais. Daqui a algumas gerações teremos verdadeiros mausoléus, criptas em zonas fantasmas esquecidas em terminais jamais visitados. Criando-se organicamente salas e salas de provedores e fios em edifícios aonde ninguém mais sabe como chegar, mantidas espontaneamente a sustentar a lembrança mórbida de seres que só existem virtualmente. Não é de se espantar que a radicalização da noção de indivíduo, combustível ao princípio de reposição constante de nosso sistema de consumo, criasse um novo Egito com seu moderno ritual de mumificação e mais propriamente de divinação, onde cada um é seu próprio faraó a ser eternizado para si mesmo. Hoje já é abundante a quantidade de álbuns e diários de pessoas falecidas. De perfis no Orkut, já ouvi falar de muitos, fantasmas perambulando com sua carne em cache, vagando no limbo de suas pós-vidas digitais que não lhe deram nada mais que 15 bites de fama.

 


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questões possíveis para o próximo vestibular:


1. A arte é substancialmente algo que pode fundar realidade, que não seja uma outra realidade, mas a própria realidade?

2. De que parte sólida do real vem a substância que materializa o momento poético?

3. A poesia e a arte se esgotam na materialização de seus produtos ou são os seus produtos o que materializa o esgotamento de toda impossibilidade causal da realidade?

4. A história, logo, o homem enquanto processo, é fundada radicalmente, enquanto memória do todo e da parte, pelo ato de se poetizar enquanto mundo?

5. O espanto de ser homem é o que nos torna homens?
 


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definir Deus é já matar Deus (pequena fábula amoral)

Deus não gosta que se adivinhe seus pensamentos. Não gosta que desvendemos, de antemão, a laranja e todo o seu arranjo de gomos de vidro. Prefere que o homem seja mais cuidadoso consigo e experiencie cada segundo de sua existência junto aos seus pequenos presentes. Mas o homem, animal curioso, está lá, futucando as gavetas de Deus, enchendo o saco de seus mistérios, pedindo para contar segredos. O homem tornou-se então perito em adivinhar coisas e criações. Supõe como ninguém a presença e as formas das frutas carnosas planejadas com tanto esmero no ateliê do criador. Frustrado, Deus desinteressou-se em criar novidades, deixando ao homem a suposição das coisas que não planeja conceber. Largou seu ateliê aberto e foi comprar cigarros. Enquanto o homem, supondo partículas, adivinhando fótons, quarks e quanta, perde-se no prazer vicioso de jamais ser contrariado em seu jogo cego de adivinhações. Esquecem que nenhuma de suas acertivas jamais poderá supor sua maior meta: o próprio Deus. Como adivinhar o que já se sabe?

 


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questão para palavra cruzada de uma única palavra:

1. Instigado por Boaventura, me pergunto: se as águas pensam, o que elas sonham?

 

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Se eu pudesse indicar uma questão que, ao meu ver, é crucial ao ocidente hoje, com certeza seria a questão da identidade frente a um mundo irreal, ou, em outras palavras, a questão da verdade, num mundo fictício. Não é de hoje que a realidade, concebida como parâmetro máximo de estabilidade para a consciência, vem sendo posta em dúvida. Não é preciso nem citar Borges, Cortázar, os surrealistas, nem os princípios da incerteza e a complementaridade da física moderna. Mesmo dentro das questões dos nossos pensadores já se tornou um clichê falar da imprevisibilidade do real, mesmo que no senso comum nossa maneira de compreendê-lo esteja ainda dimensionada por princípios clássicos de causalidade. Isso ocorre mesmo entre a maioria dos físicos, ou pelo menos entre aqueles menos interessados em filosofia. A própria tecnologia, a tecnologia de ponta é concebida pelos princípios da física quântica, mas é consumida segundo os ideais da física clássica. Mas, por algum motivo, talvez por uma reincidente tentativa de se tratar o tema, a questão da identidade tem, cada vez mais, ocupado a mente e o cotidiano dos homens. O irrealismo de Flemming, o logocentrismo de Derrida, a crítica de Heidegger à metafísica, a construção histórica apontada por Benjamin, são insistências, cada vez mais ponderadas, a se somar e a cunhar essa crítica à construção do ocidente, enquanto história e tradição do conhecimento, ou seja, enquanto farsa, simulacro. Desde Pessoa, nunca se viu, como nessas ultimas décadas, se criar tantos pseudônimos, heterônimos, autores coletivos, personagens fantasmas, falsas bibliografias, enciclopédias inexistentes, informações acadêmicas duvidosas, congressos irreais, biografias com fatos inventados, artistas que não existem ou expõem quadros invisíveis, filmes onde a personagem fictícia interfere na vida da personagem real. A Internet só veio auxiliar essa propagação. São milhares de milhares de identidades falsas e notícias sem origem, vulgarização da irrealidade real de nossa memória social. Mas se a Internet levou essa questão a nível pessoal, foi um programa de TV que o levou ao nível da massa. Até onde sei, o humorístico Pânico na TV foi o primeiro programa com altos índices de audiência a duvidar da própria programação e dos próprios apresentadores. Auxiliado pela sua natureza, a de lidar com celebridades, personagens “reais” e midiáticos, eles promovem um verdadeiro carnaval de falsos acontecimentos. Entre outras coisas, já tiraram o programa do ar por quase meia hora, no instante em que “denunciavam” a própria emissora por conspiração, maus tratos, e de dar preferência a outros programas mais conceituados. Quebraram até o próprio cenário como protesto ao descaso. Em uma série de outros episódios, “sumiram” com um dos apresentadores, após uma discussão ao vivo, para reencontrá-lo meses depois (através de uma fita amadora misteriosamente enviada para a emissora) convertido a Hare Krishna e oferecendo flores nos sinais de trânsito. Esse episódio e os subseqüentes, a tentativa de fazê-lo retornar ao programa, mobilizou a mídia, que durantes meses se perguntava pela veracidade do fato, aumentando, obviamente, a audiência do programa. Em outro episódio chegaram a chamar um locutor para ler, por quase dez minutos, O Guardador de rebanhos do Alberto Caeiro, no intuito de “baixar a audiência”. Na verdade, durante a leitura, a audiência superou a das outras emissoras. Houve ainda milhares de outras farsas menores tais como piquetes de anões, flagrantes simulados de palhaços assaltantes e denúncias de sabotagem por outras emissoras. Formou-se uma lenda em torno do programa e qualquer polêmica que venha a apresentar é sempre envolvida por uma aura de mistério e desconfiança. Não só a própria TV e seu sistema de informações foi posto finalmente em dúvida, mas a própria estrutura dos programas era evidenciada. Tiraram a “maquiagem” da verdade e problematizaram as falhas de seus realizadores. Uma história da humanidade forjável não poderia impedir uma mídia forjável. Para além da metacrítica, fundamos a metamídia. O simulacro do simulacro do simulacro.



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Nietzsche está morto!
— Deus
 

 


MÁRCIO-ANDRÉ é poeta, contista e músico, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita a revista literária Confraria. Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com 


 

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