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márcio-andré


uma tarde na casa de Gerardo Mello Mourão

 

 

 

Nunca mais hei de morar senão debaixo do meu chapéu
— Gerardo Mello Mourão
 


Num espaço de oito meses, passei por duas experiências que foram para mim grande relevância. Dois encontros: um com a poetisa Heloísa Maranhão, outro com o escritor Gerardo Mello Mourão. Ambos já muito idosos, já muito experimentados na arte de escrever. Apesar de trajetórias bem distintas, o contato com esses dois poetas me inspirou comparações.

Heloísa é autora de um livro bastante singular, Castelo Interior e Moradas, que teve várias reedições e fez um certo sucesso de crítica. É para mim um livro marcante, pois foi um dos meus primeiros contatos com uma literatura carioca menos convencional, menos carioca (se assim posso dizer), numa época pré-Internet em que tudo era marcado por um certo mistério e nada tinha origem. Esse livro remetia às cantigas trovadorescas da Idade Média e ainda assim era extremamente moderno, cheio de alterações sintáticas, desconstruções de palavras, intervenções de imagens. Gerardo, por sua vez, é dono de uma vasta obra literária que vai da poesia ao ensaio, passando pela prosa e pela tradução. No entanto, foi seu livro mais famoso, Os Peãs, apresentado pelo amigo Guilherme Zarvos, que me levou ao escritor. É um poema longo, cheio de cantos, e que, como o Castelo Interior e Moradas, teve várias edições até chegar a uma definitiva, completa. Esse também é um livro bastante singular em meio ao que se escreve no Brasil, com sua estrutura épica, suas tantas enumerações e imagens grandiosas.

Mas creio que essa seja a única relação que posso fazer entre os dois. Na verdade, foram encontros bem distintos, que me evocaram destinos igualmente distintos. Heloísa, sofrendo do mal de Alzheimer, hoje provavelmente não deve se lembrar de mim. Em nosso único encontro em sua casa em Botafogo ela esquecia constantemente meu nome e do motivo de minha visita, apesar de sua saúde física estar muito boa para os seus 74 anos. Sempre desconfiada, parava às vezes de falar, e ficava me observando, como querendo saber de onde eu vinha ou o que fazia ali na sua varanda, olhando para ela, à expectativa de algo que iria dizer. Em outros momentos falava com uma lucidez tal, que era possível jurar que tudo aquilo não passava de encenação para ostentar um perfil de poetisa excêntrica. Nesses lapsos, dizia coisas interessantíssimas, o tipo de coisa que se espera de uma autora vivida. Não queria ser fotografada, acho que por ser velha, o que era uma bobagem, pois era uma velha muito bonita. Já Gerardo, com seus quase 90 anos, vivendo na Rua Toneleiros, em Copacabana, é justamente o oposto. Apesar de precisar constantemente de ajuda para levantar e sentar, se locomover de um canto para outro, para pegar um livro, de ser vítima de uma operação de mão mal sucedida, o que o impossibilita de escrever, e de uma surdez que ora funciona, ora não, está lúcido, ativo mentalmente, e bastante interessado em computadores, Internet e no que de novo se produz em literatura. Na primeira visita, eu e Victor Paes levamos algum tempo até nos acostumarmos com seu ritmo de fala. A pressa característica da nossa geração, aos poucos, foi cedendo ao adagio appassionato de suas histórias, cheias de parênteses e parentes, Mourões todos.


Estar com aqueles dois escritores, cada um com seu vigor próprio, ambos menos lidos do que merecem, era poder presenciar forças intelectuais poderosas, provas vivas de uma literatura brasileira muito mais vasta, muito mais plural do que aquela que somos obrigados a conhecer. No entanto, a visita à casa de Gerardo me foi muito mais marcante que à casa de Heloísa. Não pelo interesse que ela ou ele me despertam, mas, talvez, pela própria casa e seu poder de revelar a parte de dentro mais fora das pessoas. A casa de Gerardo, mais cosmopolita, mais erudita, mais conhecedora de gente, mais viva em vários sentidos, guardava outras casas dentro dela - uma casa cheia de cômodos que levavam a outros cômodos ainda mais cheios de cômodos. Uma casa que não era mais que a trajetória final de toda uma existência coletando casas.

Se, tal como no Castelo Interior, a casa de Heloísa saía de quartos, alcovas e moradas, num universo pequeno, cavalheiresco e medieval, a casa de Gerardo preferia navegar em direção ao mundo, inventando mares, saberes, desbravando novas coisas e novos continentes.

Na casa de Heloísa, fiquei restrito a uma agradável varanda, numa conversa que nunca passava do simpático, pelos seus constantes esquecimentos. Já na casa de Gerardo, fui recebido com um universo riquíssimo de artefatos de arte e de uma biblioteca com mais de 20.000 livros. Por todo lado, pinturas, esculturas, telas, móveis exóticos, máscaras, armas, tapeçarias e lombadas, milhares de lombadas. No corredor, pinturas chinesas, o diálogo entre Confúcio e Lao Tse, no escritório fotos de Proust, Pound, Baudelaire, Rimbaud, Kafka, edições raríssimas do Pentateuco de Confúcio, de Don Quixote, livros com dedicatórias de grandes autores seus amigos. Na parede da sala uma reprodução de Guignard, duas moças sentadas num banco, no fundo a vista imaginária de Olinda: estas são minha esposa e a irmã dela - disse-me - Ele as pintou quando se hospedou na casa de meus sogros. E imitou diversas falas leporinas do pintor. Também imitava portugueses com sotaque português, franceses em francês, ingleses em inglês e gregos em grego. E o prêmio Nobel?, perguntei. Tratou de fugir do assunto: "besteira. A cada ano são mais de duzentos concorrendo, não há méritos em ser indicado”. E me contou mais uma história, dessa vez, sobre a premiação de Pablo Neruda. Adora contar histórias e nunca se perde, sempre volta para casa. Contou-me de quando morou na China e como agilizou a tradução de Os Sertões para o chinês, contou-me de sua visita à casa de Pound, em seus anos de silêncio. Visita, segundo ele, incentivada por Michel Deguy e Octávio Paz. O mesmo Pound que reconheceu sua importância: “Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta do País dos Mourões”. Contou-me dos poetas, dos loucos, dos padres e das mulheres que conheceu, de todos os países em que morou. Mas a melhor história que me contou foi esta: quando era jovem, tendo por modelo os poetas românticos, prometeu morrer aos 21 anos de idade para seguir o exemplo de Álvares de Azevedo. Quando finalmente completou 21, pensou bem e resolveu então morrer, tal como Castro Alves, aos 24. Aos 24, adiou a morte para os 34, tomando a mesma liberdade de Fagundes Varela, mas aos 34, decidiu imitar Victor Hugo, que morreu com 80.

 

Sua figura um tanto pequena para um escritor tão grande, é sublevada pela imponência de sua personalidade, de sua força que o faz, aos quase 90 anos, ainda escrever textos geniais, com o frescor de um escritor em plena atividade. É nos seus textos que se nota a sua lucidez, a sua extrema consciência do mundo a volta. Desde essa primeira visita que fiz à casa de Gerardo até hoje, vem se acentuando em mim a vontade de declará-lo um grande escritor. Não meramente um grande escritor qualquer, mas um dos maiores escritores que a língua portuguesa já teve. Sua vasta obra, publicada em mais de vinte línguas, é impecável. Tirando alguns livros que, comparativamente, ficam a desejar, não há nada em sua bibliografia que o desmereça ou o diminua. Tudo é grandioso, tudo é genial. É uma obra, sobretudo, singular, como é a de todo grande escritor. Bastante erudita às vezes, é verdade, mas nem por isso, afetada. Parece seguir o caminho pós-geração perdida, de Pound e Eliot, numa alternativa paralela à trajetória seguida pelo concretismo dos irmãos Campos. E apesar disso tudo, pouco se ouve ou pouco se escreve sobre ele. “Por que não se fala em Gerardo Mello Mourão?” Perguntou certa vez Nelson Rodrigues.

Na única comunidade dedicada a ele no Orkut, 40 membros apenas, a maioria parentes distantes, o neto do primo do tio que ouviu falar no parente ilustre. Na Internet muitas páginas, mas poucos estudos. Uma pena, para um país com tanta carência de mentes geniais, de uma literatura de alta qualidade, como é a de Sousândrade, Machado de Assis, Osman Lins e Guimarães Rosa. Mas a maioria dos intelectuais hoje só quer falar de seus amigos, em geral, poetas medíocres, atribuindo esse descaso às controversas posições políticas de Gerardo.

Gerardo fala disso tudo com um certo encanto amargo. Na biblioteca, entre uma conversa e outra, me disse: “O poeta precisa da solidão”. E logo depois acrescentou: “mas ele precisa compartilhar a solidão dele com a solidão do outro”.

Gerardo é um homem da palavra, e sabe que sem a palavra, não pode haver realidade, nem casa, nem nada. A linguagem é a morada do homem — ouve-se Heidegger dizer pela boca dos outros. Gerardo o sabe: "Tentava também evocar a cerimônia do batismo, quando o padre derrama água na cabeça da criança, ao mesmo tempo em que lhe pronuncia pela primeira vez o nome com que há de existir e durar e morrer. O nome que vem na água entra em nosso corpo como num cântaro de barro. É um metal líquido, adquire todos os detalhes de nossa estrutura, cresce em nós e conosco até tornar-se numa sonora solidez de bronze. Talvez não sejamos mais que uma fôrma de nosso nome".

Concordo com Augusto Frederico Schmidt, para quem o maior poder de Gerardo está em fazer conhecer coisas invisíveis. Mostrou-me, por exemplo, um manuscrito no qual havia trabalhado, mas resolveu parar — descobriu que quando o terminasse chegaria a hora de sua morte. Era um truncado manuscrito sobre o nome de Deus, ritmado, complexo, suave, e eu, que não sou religioso, pude sentir o verdadeiro sentido da palavra sagrado, enquanto o ouvia recitar com seu sotaque inconfundível. Entendia o porque de seu temor: não se recita textos em vão, e muito menos se os escreve sem arcar com as responsabilidades.

Nas minhas viagens psicodélico-românticas comecei a vislumbrar a casa de Gerardo como um templo. Gerardo, extremamente católico, e talvez por isso, extremamente íntimo da sacralidade radical das palavras, bíblica e ainda assim pagã, compreende o sentido de as guardar. Mas não de qualquer maneira, não num relicário cujo vício do desuso as desgasta, mas guardá-las nas seqüências únicas de suas obras, chave para a invocação da sua verdadeira força.

Não que não houvesse isso em Heloísa, a força da criação na ordem de suas sentenças, e principalmente o desejo, tão humano e tão divino, de ser reconhecida pelo trabalho que produziu a vida toda. Ela também se alegrava ao contar suas histórias, seus encontros, suas viagens. Mas acho que vou guardar impressões diferentes dos dois. O encontro com Heloísa vai sempre ficar na minha memória como algo que revela minha própria solidão. Tudo em sua varanda era solitário, com uma luz muito tênue, muito delicada. Não havia mais ninguém, além dela e da enfermeira. Uma casa de dois andares, tão carente de gente como ela de reconhecimento. E neste sentido Heloísa foi mais infeliz que Gerardo. Ela é ainda menos reconhecida, menos badalada, e mesmo sua obra não alcançou tudo o que prenunciava o seu Castelo Interior e Moradas. Seu desejo de transgressão da narrativa não possibilitou narrativas verdadeiramente transgressoras. Gerardo, pelo contrário. Sua casa era mais movimentada, com sua esposa, uma enfermeira e mais alguém que cantarolava um pagoge com o rádio da cozinha. Saí da casa de Heloísa como quem se despede para sempre, sozinho, sob uma chuva que apertava. Enquanto que com Gerardo, a sensação era que o veria ainda muitas outras vezes: agora que vocês já sabem o caminho, não deixem de voltar. E voltamos, muitas outras vezes, e continuaremos a voltar, para conversar e nos inspirar.

 


MÁRCIO-ANDRÉ é poeta, contista e músico, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita as revistas literárias Confraria e Improvável (www.improvavel.com). Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com 


 

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