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márcio-andré
a via reta do autor soberano
então o mar se fez do mar — feto de seu
próprio útero — os peixes escheceram de si e acharam ser o próprio mar.
assim, deus, que era também mar, invejou ser peixe, pois sabia não poder
não saber não ser mar somente.
deus [possibilidade real de um mundo irreal] é um espaço branco em torno
do sonho a ser salmodiado na sintaxe dos elementos.
tendo presenciado estas coisas o Mestre assim me disse:
a poesia é um dos caminhos para a perfeição. O auto-conhecimento só é
possível com o abandono do ego. todo conhecimento é inútil sem humildade.
só a quietude permite a Obra.
e assim definiu o caminho do autor soberano:
I. humildade. o autor soberano deve ser consciente de sua pecheneza
perante a Obra. o autor só é autor pela Obra. sua natureza divina não deve
ser vulgarizada
II. o caminho da Obra é sempre uma tentativa. o autor soberano já está
certo por seghir, pois seu caminho é torto. a perfeita sabedoria não é
premeditada e só o tolo pisa as pedras já pisadas
III. conhecer a Obra é fundar-se no perpétuo. ser perpétuo não é ser
eterno mas modular secuências no ostinato da Obra. sabê-la é produzi-la.
esse é o movimento
IV. a conduta deve ser livre de cualcher preocupação. a vulgaridade é a
inconsciência dos próprios atos. o verdadeiro autor não se importa com o
fugaz. deixa a pérola no abismo. a Obra não admite concorrente — as águas
passarão, mas o rio continuará lá. ser autor é não-ser-nada
V. o autor deve ser um monge e um sátiro. o prazer só é válido pela sua
contemplação
VI. uma árvore tem galhos para pássaros grandes e pechenos. não favorece
nenhum deles. o autor nunca deve compor para si, nem para todos, nem para
alguns. em verdade ele deve compor-se Obra
VII. existem muitos autores e a cada um cabe a sua parte. uma das asas de
um pássaro não mede forças com a outra. da mesma forma o sábio não disputa
sabedoria. assim digo que não se deve medir ninghém pelo seu saber mas
pela sua capacidade de aceitar a sabedoria alheia
VIII. o autor deve ser como o homem que à beira do rio capta o movimento.
para alcançar a poesia é preciso a meditação / contemplação. ser na frecuência das coisas, em todas as gamas da luz, respirar com o lodo da
terra. assim o poeta deixa de ser poeta e se torna autor. a poesia deixa
de ser poesia e se torna Obra. as coisas deixam de ser objetos. o universo
desmorona e num sopro vemos o ranger por trás do cenário do mundo. o
caminho da poesia é o caminho da iluminação. tudo forma um único código. e
esse código é Deus
MÁRCIO-ANDRÉ é
poeta, contista e músico, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras
e membro do grupo Arranjos para Assobio, de texturas poéticas realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com).
Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey,
Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita as revistas literárias Confraria e Improvável (www.improvavel.com). Suas páginas são www.marcioandre.com
e
http://marcioandre.confrariadovento.com
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