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márcio-andré
sobre a permanência das coisas e
de outras coisas
sobre a permanência das
coisas
hoje, na cultura de massa, na sociedade de consumo, desenvolveu-se o
menosprezo pelas coisas. as coisas não duram. as coisas não têm
permanência nem relação com o homem. elas, por si, são perecíveis e pedem
a sua destruição na exigência de uma reatualização de mercado. as coisas
são destruídas para manutenção da subjetividade daquele que a destrói. a
coisa não é mais sagrada. sem o sagrado não há a reverência e a gratidão
por tudo o que se consome. consumo tornou-se expressão e destruição.
antigamente as coisas duravam uma vida. envelheciam com o homem. a vida em
verdade passou hoje a ser uma contagem de duração das coisas.
o poeta deve amor pelas coisas. ele precisa compreendê-las, caso contrário
sempre estará restrito a sua individualidade. será sempre o poeta de si
mesmo. o cantor do eu. ser poeta é habitar o entreato das coisas.
o amor pelas coisas é o primeiro passo para a harmonização entre os
homens.
amor pelas coisas não deve ser confundido com apego material. neste último
o que prevalece é o amor antes pela lógica de consumo (i.é.:
aniquilação/reposição constante das coisas) tornando as coisas cada vez
mais descartáveis.
a relação com as coisas não deve ser de posse. amar uma floresta não
pressupõe tê-la no quintal.
a profusão dos prospectos e cartazes, o lixo dos panfletos, a abundante
retórica do comunicar, as mega-campanhas publicitárias com suas toneladas
de celulóide descartável em nada se compara à preciosidade do pergaminho
na Idade Média.
aquele que menospreza as coisas é aquele que acredita na soberania do
sujeito num mundo que só existe para seu consumo. o apego material não é
nada menos que o menosprezo máximo pelas coisas. o desejo de ser senhor do
mundo.
sobre os deuses
vemos, hoje, a desmoralização dos deuses.
deuses que antes integravam os cultos sagrados à terra, as festas ao céu,
a auto-transmutação nos transes coletivos, tornaram-se os espíritos
doentes dos males da individualidade: os demônios opressores dos cultos
pentecostais, a razão dos alcoólatras, os responsáveis ocultos dos crimes
passionais, a inambigüidade poética que hoje acompanha os loucos. deuses
enfermos e tortos como vadios e putas, que se vendem por uma garrafa de
cachaça. tudo em nome de um deus solitário e cansado de sua impotência de
ser plural.
sobre os discos
quando garoto, costumava colecionar vinis raros. passava dias inteiros
vasculhando sebos e lojas. percorria bairros e galerias obscuras,
esquecidas nas horas do tempo de escadas infinitas e placas pintadas a
mão. para além do mistério de cada uma dessas lojas, únicas e eternas,
como se nunca tivessem tido um começo, mas fossem prontas e abandonadas
nas fendas da cidade, existia um mistério no procurar discos, talvez
porque fosse uma aventura tão incerta quanto a vida. tudo era muito
irregular, não existia uma previsão do que se poderia achar e aonde. o que
se encontrava numa loja não se encontrava em outra, tornando o fato de
percorrer bairros loja por loja uma questão de necessidade para o
colecionador. cada vinil era singular, ainda que fosse um produto
industrial. achar um disco específico, tão procurado e raro, era de fato
uma aventura. ouvia-se boatos de alguém que o tinha visto em algum lugar,
apenas boatos. tal peça poderia nem existir. e de fato tais objetos não
existiam, mas se geravam, imprevisivelmente, conforme sua própria vontade.
também eles, como as lojas, transitavam por um tempo insondável entre
dimensões. até hoje guardo discos com os quais jamais me deparei de novo.
tudo isso acabou com a internet. e as enciclopédias misteriosas de Borges,
o segredo das coisas sem origem, a magia dos lugares silenciosos, os
esquemas nefastos, tudo isso parece impraticável hoje. qualquer mistério é
aniquilado com uma simples pesquisa no Google. um autor, um poema, um
item, uma seita. até as conspirações de dominação mundial perderam força
com suas comunidades no Orkut. claro que ainda nem tudo foi catalogado e
certas coisas mantém seus mistérios, mas é tudo uma questão de tempo para
que sejam pegas pela rede.
sobre o artista
me incomoda a idéia romântica do artista egocêntrico. o artista que, como
um semi-deus de seu próprio eu, transita entre os mortais, superior e
soberbo do orgulho de só ele poder ser ele. e hoje, num mundo onde cada
sujeito se afirma sujeito subestimando o outro, fica difícil compreender
como podemos ainda admirar algo que não seja fruto do nosso próprio
universo subjetivo. como podemos dialogar se o que interessa é apenas
dizer e dizer e dizer somente nossas vivências, para aquém das
experienciações concretas, que se fazem pelo ouvir? a expressão é a moeda
de troca vigente, e o artista, o comerciante vendendo o seu próprio
universo a quilo. mas e a arte? o impasse se torna claro no fato de que
qualquer viagem de psicotrópicos seria o suficiente para produzir uma obra
prima, o que não acontece.
acredito cada vez mais que o artista é aquele que compõe para outro.
compor para o outro não deve ser confundido com o compor pensando
num público. não existe nada mais egoísta do que compor segundo
demanda de mercado e nem mais tolo o artista que acredita que sua obra
pertença somente a ele. o compromisso com o outro não é se vender ou ceder
a sua obra, pelo contrário, é a única maneira da Obra se manter em
movimento. Escrever uma obra dando o mais profundo de si mesmo é se dar ao
outro. a Obra é sagrada e exige uma devoção que vai além da superfície
coagulada do subjetivo. esta devoção é o extremo-oposto do universalismo.
é, na verdade, a vigência plena das diferenças. quanto mais o artista se
engaja num caminho que vai pela contramão, quanto mais se aprofunda em si
mesmo — e não no seu ego — e nas poéticas mais radicais, próprias e
provocadoras, pois diferenças, mais ele se doa ao outro, justamente por
doar o que jamais havia sido doado. mas quanto mais ele permanece nos
moldes pré-estabelecidos, na estética padrão, no caminho fácil, nos
clichês estilísticos, nos modismos visando a fácil ascensão na bolsa da
aceitabilidade estética, mais ele está aprisionado ao seu ego, pois está
mais preocupado em ser aceito, admirado, que compromissado verdadeiramente
com o caminhar da Obra. este último é muito mais ardoroso pois, antes de
percorrer os caminhos já trilhados, exige que se abra na mata um caminho
inexistente, um caminho inédito até o outro, o que desperta o ódio e o
desprezo daquele a quem se quer chegar. ou seja, o artista, além de tudo,
acaba por se tornar um mártir que deve sofrer as dores do e pelo mundo.
o que crio não é para me expressar, mas para mudar a mim mesmo —
John Cage
insisto: a arte não é o lugar para se fazer o que se gosta mas o que se
duvida. a arte não é um passeio de domingo, mas uma viagem profunda em si
mesmo, que o transforma de tal maneira que não se pode deixar de ser
moldado por ela. o artista que tem medo de duvidar, seja de si, seja do
mundo, tem medo de deixar de ser como é, pois ainda se admira como
sujeito, não como universo. este ainda não está pronto para mártir. sua
viagem consiste em ir somente até a esquina e voltar.
MÁRCIO-ANDRÉ é
poeta, contista, músico e fotógrafo amador, autor apócrifo dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras. Faz
mestrado em Poética na UFRJ pesquisando arte, pensamento oriental e outras
esquisitices, e
integra o grupo Arranjos Para Assobio, de poéticas experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com).
Atualmente trabalha na tradução de poesias de Arnold Flemming, Serge Pey,
Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita as revistas literárias online Confraria e Improvável (www.improvavel.com).
Suas páginas são www.marcioandre.com
e
http://marcioandre.confrariadovento.com
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