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adolfo montejo navas
ruído de fundo V
Sobre o peso do tempo, já deve ter sido dito quase tudo. Ele cresce
conosco, aumentando seu diapasão, seu ratio de ação, também as suas
armadilhas. Escrever ao redor dele – nas suas redondezas –, talvez seja
equilibrar o jogo, a prática de certa leveza. Suspender esse seu ditado
monopolístico. A nós cabe essa poética engajada.
SETEMBRO
18. O tiquetaque dos mortos.
19. Com aquilo que resta do dia se pode fazer um fogo de palavras.
20. Qualquer felicidade é uma semente.
21. A morte como dispersão ou como concentração?
22. O vento do tempo é a memória.
23. Acordar é nomear o mundo.
24. Um martelo que lembra os seus golpes.
25. Cada viagem é uma idade.
26. A história de um fragmento que equivalha à procura do tempo
perdido.
27. Nossos anos também dão a volta ao redor do Sol.
28. Dedicar mais tempo às articulações, às interseções, aos
cruzamentos das coisas.
29. A mais longa viagem começa quando a alma descobre o corpo.
30. Aprender a viver nas margens do tempo.
OUTUBRO
1. Os dias, essas caravanas que atravessam o deserto.
2. O tempo é mais rápido que as coisas, porém mais lento que a vida.
3. Números arábicos para esconder o ruído do tempo?
4. A idéia de Swedenberg de que o Juízo Final foi no dia 9 de janeiro de
1757
significa que vivemos já como condenados, ou como salvos.
5. Um ponteiro é a pureza do tempo, o resto é o relógio.
6. Antes de chegar um pensamento costuma chegar seu perfume.
7. Agora as pessoas podem matar-se por dez minutos.
8. Descobrir a relação de parentesco entre uma quarta-feira e uma
quinta-feira.
9. Um hipocondríaco é muitas vidas vencidas.
10. Nosso maior sonho: ser canibais com o tempo.
11. A cidade mudou mas as nuvens continuam sendo as mesmas. (Madri)
12. Uma linha-ponte para Joubert: um ano construído sobre dois únicos
aforismos.
13. As contas rasas dos espelhos, com nossas aparições e
desaparições.
14. Contra o fogo mais velho da noite, as lâmpadas mais novas.
15. Um país tão novo que qualquer coisa é notícia.
16. O tempo é aquela eternidade que um dia começou a andar.
17. Uma cicatriz que não lembra.
18. Há momentos em que a eternidade se cruza com o tempo em plena
rua mas não se reconhecem.
19. Acorda como se fosse o último dia e deita-se como se fosse o
primeiro.
20. A morte poderia ser um exercício de lentidão: cada vez mais devagar,
mais devagar, até parar completamente.
21. O presente, o único absoluto que temos.
22. O tempo vive de relativizar-se.
23. O domingo é o dia dedicado aos símbolos.
24. O único lugar onde a memória descansa é no esquecimento.
25. Um dia qualquer já é toda uma empreitada para governar.
26. Quando o tempo se recicla, avisa.
27. Os dedos do pé nos lembram os nossos antepassados mais distantes.
28. Um terço de nossa vida se gasta em levar coisas de um lado a outro.
29. O tempo sempre é primitivo, primal, primogênito...
30. Manter uma vida em dia é escutar o ruído diário das
veias.
31. Há uma parte da realidade que tem que ser devolvida diariamente.
NOVEMBRO
1. Entre o passado e o futuro, o presente equilibrista.
2. Centenas de passos para atravessar o dia.
3. Demorou anos e anos para construir uma passagem secreta entre o coração
e a
cabeça.
4. Viver acelera a vida.
5. O Grande Juízo Final atolado em inumeráveis pequenos juízos.
6. A tarde é a elegia do dia.
7. Os galos se atrasam, mas as cigarras não.
8. Entre a realidade e o tempo, o mistério das operações
combinatórias.
9. O último salto da noite é o vazio.
10. Um ruído distinto para cada mistério que nasce.
11. Dormindo, nadamos no nada.
12. O primeiro silêncio chega até aqui.
13. Um tempo de segunda mão.
14. O amor vive de desaparecer, de se esconder.
15. Viver a distância do relógio, o tempo dos sinos.
16. Deveríamos saber pelo menos a hora precisa de nossa despedida,
já que o dia não é tão necessário.
17. Uma meta: chegar atrasado à morte.
18. Um suicida é alguém que adianta o relógio demais da conta.
19. A morte é o último anel no dedo.
20. O tempo gosta de devolver nossas promessas sem nenhum preço.
21. A vida se mete tão dentro que depois é difícil de tirá-la.
22. O dia dos tontos, segundo Mark Twain, é o 4 de julho. Mas cada
país tem uma data distinta.
23. Até o tempo tem as suas sanguessugas.
ADOLFO MONTEJO NAVAS
é poeta, crítico de arte,
tradutor e curador independente. Nascido em Madri, em 1954, mora no Brasil
há 14 anos. Publicou 49 silêncios (2004), Inscripciones
(1999), Pedras pensadas (2002), Na linha do
horizonte/Conjuros (2003), Da Hipocondria (2005), entre outros. Realiza periodicamente mostras de
poemas-objeto e poemas visuais.
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