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márcio-andré


noites de Coimbra

 

 

 

Por conta de um convite da Universidade de Coimbra, arrumei minhas malas e parti em maio último para Portugal, para participar do VI Encontro Internacional de Poetas. No princípio, fiquei um pouco surpreso pela escolha de meu nome para figurar entre os outros cinqüenta poetas de tantos cantos do mundo, em um evento que já havia recebido Haroldo de Campos, Bernard Heidsieck, Helder Macedo e Seamus Heaney e que, nesta edição, receberia Nicole Brossard, C.D. Wright e o lendário poeta beat Stephen Rodefer. Cheguei a pensar mesmo que haviam se enganado de Márcio André (sem hífen), afinal, sabia que com um nome tão comum quanto esse andavam por aí um sambista, um estelionatário com o qual vivem me confundindo e um tricampeão regional de futebol de botão. Além do mais, eu, com apenas dois livros publicados, não era nenhuma grande celebridade e nem era muito bem engolido pela nata literária carioca. Mas a carta estava ali, com meu nome hifenizado, na minha caixinha de correio, fazia menção a meu trabalho e pensei que, mesmo sendo um engano, eu poderia tirar vantagem disso.

Eis que no dia 22, às 21h, eu embarcava no Aeroporto do Galeão. Estava um pouco nervoso, pois devo admitir que sempre tive dificuldade em compreender o português falado do outro lado do atlântico, problema que foi resolvido pela TAP. A Companhia aérea tem um verdadeiro programa de lavagem cerebral, com dez horas ininterruptas de programação televisiva em sotaque lusitano, de tal forma que quando os brasileiros pisam na terra de Camões só precisam tirar a dupla cidadania.


Primeiro dia

Minha estadia em Lisboa (espaço intermediário entre o aeroporto e Coimbra) durou cerca de quinze minutos, tempo necessário para a chegada dos outros poetas que iriam dividir a van comigo. O trajeto até Coimbra, ao lado de dois irlandeses (a veterana Eiléan Ní Chuilleanóin e Macdara Woods), dois americanos (John e Jeniffer Taggart) e uma palestina (Faiha Abdulhadi), já tinha matéria suficiente para um livro de ensaios sobre diferenças étnicas na poesia. Eram todos muito interessados em saber da exótica poesia brasileira e em falar da poesia de seu próprio país. Como meu estudo de inglês havia parado no nível neanderthal, revezávamos com o francês, e a conversa pôde se sofisticar um pouco mais. O motorista, então, pediu para que eu perguntasse a todos se gostariam de parar em um distrito chamado Nazaré. A Palestina surpreendeu-se e disse:


– Nossa, como você é erudito! Onde você aprendeu português?


– É minha língua nativa.


– Então você não é brasileiro?


– Sou, e o português é a língua do meu país.


Ela arregalou os olhos incrédula. Foi justamente John, o americano, quem confirmou minha informação.

Reconheci Coimbra a distância, apinhada na montanha como um cacho de pedras antigas. Lá em cima, brilhava o relógio da universidade. John Taggart preferiu ficar fumando seu cachimbo no hotel Astoria e eu fui conhecer a cidade a pé. Segui por tudo que era beco, ladeiras íngremes e vielas sinuosas. Circulei pela universidade e assisti à alegria boêmia dos jovens portugueses de cabelos encaracolados. Toda a cidade era um espetáculo de contornos renascentistas e até as ruínas pareciam construídas. Os velhos de boina e as velhas de vestido preto – tudo real – tudo tão perfeitamente real que parecia irreal.

Quando começou a chuviscar eu passava pelo Beco dos Palácios Confusos e ouvi o choro de um cão. Ele estava sob o batente de uma porta, tentando se esconder da chuva. Não tive dúvidas, era King, o cão-narrador do livro Escrita INKZ, do meu amigo, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que morava na cidade. Havíamos combinado que, caso não nos encontrássemos, ele deixaria o seu cão fictício pelas ruas de Coimbra, para que pudesse guiar-me em minha estadia. Fiz carinho no cão para acalmá-lo e ele me acompanhou até chegar ao hotel, mas depois disso, não mais o vi, sinal de que talvez ainda pudesse me encontrar com meu amigo.

À noite, o jantar de boas-vindas aos poetas. Foi lá onde conheci os simpáticos organizadores do evento, Maria Irene Ramalho, Adriana Bebiano, João Paulo Moreira, Graça Capinha, Isabel Pedro e os alunos que auxiliavam na organização. Bebi um pouco e me lancei ao desafio de tentar imitar o sotaque português com perfeição até o final da semana. Conheci a Cláudia Roquette-Pinto, outra convidada brasileira. Do restaurante, os cinco ou seis que ainda tinham disposição foram para um bar onde descobri que uma garrafa de cerveja custava menos que um tubo de pasta de dentes (e aí entende-se porque é fácil ser boêmio em Coimbra). Não demorou muito para que nos lançássemos a todo tipo de discussão literária, que não durava mais de trinta segundos, e leituras de poemas que nunca terminavam. Travei com o cabo-verdeano José Luís Tavares (a quem passei a chamar de Zeca Afonso) alguma discussão sem nexo a respeito de fenomenologia alemã, e com a Cláudia, algum arranca-rabo sobre a situação da poesia no Rio de Janeiro. Stephen Rodefer sugeriu que compuséssemos um poema coletivo e Jonathan Morley cismou ser meu irmão gêmeo (as semelhanças eram muitas: éramos, de longe, os poetas mais jovens do evento, ambos tocavam violino e eram editores).

Todos já tinham voltado para o hotel, quando Stephen e eu compramos uma garrafa de vinho e continuamos a andar pela cidade. Terminamos a noite caídos em uma ponte colorida sobre o rio Mondego. O Stephen era uma espécie de Guilherme Zarvos americano, e vim a descobrir mais tarde que era um dos últimos suspiros da beat generation (ainda que preferisse ser o último teenager), amigo de Ginsberg, Burroughs e Kerouac. Ele havia caído de pára-quedas há duas edições anteriores do evento, descoberto onde eram os jantares dos poetas e entrado de bicão, comendo tudo que tinha direito. A organização tentava descobrir quem era aquele sujeito de chapéu e jaqueta de cowboy, mas, entre um prato e outro, ele simplesmente respondia: I´m fine, I´m fine. Vieram a saber quem era tempos depois e então resolveram convidá-lo oficialmente. Andava de óculos escuros, cachecol, copos pelos bolsos do casaco, distribuindo garrafas de vinho e falando que tinha dez filhos. Era um cara gente fina, sabia escutar e gostava de beber e fumar. Beirava os 70 anos, mas aparentava 50 porque morava em Paris.

Essa amizade que se firmou na primeira noite, entre mim, Stephen e Jonathan, nos levou a ser apelidados de “patota do mal” por alguns poetas pretensamente sóbrios. Diziam que éramos os responsáveis pelos incidentes etílicos do evento. Os nossos acompanhantes de copo variavam de noite para noite, mas éramos nós aqueles fidedignos à jornada noturna de bar em bar. Naturalmente, levamos a fama de aliciar os outros a nos seguir. Mas a principal culpada, sejamos francos, era a própria cidade, cuja arquitetura nos forçava a vivê-la ao máximo e não deixava ninguém voltar para casa antes do amanhecer. As festas terminavam no saguão do hotel, onde fizemos amizade com um recepcionista chamado Ruy.


Segundo dia

Perdi a oportunidade de reencontrar o Boa(ventura), pois dormi muito e cheguei atrasado ao evento. Todos disseram que ele havia estado por lá à minha procura e que não ia mais voltar porque precisava pegar um vôo para Roma, e fiquei um pouco triste, imaginando que talvez ele também fosse fictício.

Os eventos começavam às 10 horas da manhã e terminavam, em certos dias, à meia-noite. Era um verdadeiro intensivão de poesia e em línguas incompreensíveis. Em uma única sessão ouvi uma finlandesa, um russo e um dinamarquês lendo em seus idiomas de origem. Mas as salas de leitura eram fantásticas e era possível ficar horas ouvindo poesia, enquanto viajava em velhas pinturas retratando os reis de Portugal durante os séculos. Para cada sessão haviam reservado uma sala diferente e todas deslumbrantes, como a biblioteca Joanina, revestida em ouro contrabandeado do Brasil. O melhor das sessões de poesia era o fato de serem intercaladas por fartos banquetes com variedades inesgotáveis de pratos portugueses, queijos e vinhos de excelente qualidade. Nunca havia comido tão bem por tanto tempo seguido, e todos sabem que em um evento sério a comida é mais importante que a poesia.

 

Pedi para tirar uma foto com a Maria Irene e a Adriana veio falando, toda enciumada e com seu bom humor, que também queria tirar foto com "o homem mais bonito do evento". Surpreso pelo fato de haver gosto para tudo, respondi:

– Eu também quero tirar foto com as mulheres mais bonitas do evento.

– Claro – retrucou ela – as mais poderosas são as mais bonitas!

– Quem sou eu para discordar?
 

Foi interessante parar em um bar e beber com alguns dos organizadores. Havia uma alegria neles e um prazer em preparar o evento que nada tinha da velha burocracia acadêmica. Quando nos despedimos, a “patota do mal” se recusou a ser levada de carro para o hotel e caminhou sem rumo pelas ruas. Todos ficaram preocupados conosco, mas a cidade era tão pequena, que mesmo sem procurar acabamos chegando ao hotel. Cambaleávamos pelas ladeiras de pedra, ora observando os prédios fabulosos, ora rindo e gritando alguma ofensa contra os inimigos da poesia, seja lá quem eles fossem. O mais curioso nossa proficiência de, bêbados, conversar a respeito de tudo, isso apesar do meu péssimo inglês e do francês “eczecrecrabile” de ambos. Estar bêbado é a verdadeira língua universal, nem o inglês nem o esperanto.


Terceiro dia

Os poetas foram levados de ônibus até o hotel Costa da Prata, em Figueira da Foz, onde ocorreriam as leituras daquele dia. Eu e Cláudia tivemos que ouvir pacientemente as espirituosas piadas de brasileiros que os poetas portugueses João Rasteiro e Antônio Jacinto Pascoal vieram contando por todo o trajeto.

Durante as leituras no hotel, minha pressão arterial diminuiu e passei muito mal – em parte pelo nervosismo da minha apresentação, que seria naquela noite, em parte por excesso de fadiga das noites mal dormidas. Saí do auditório, sentei-me na escada, e logo veio uma das organizadoras, toda preocupada, e então ganhei suquinho e biscoitos.

Acho que nunca havia sido tão paparicado na minha vida. A organização do evento era impecável. Tudo de que os poetas precisavam era imediatamente providenciado, e todos estavam sempre a nos servir e perguntar se queríamos alguma coisa, sobretudo durante as refeições. E sempre havia alguém para cuidar dos poetas e ficar com eles até voltarem para o hotel. Às vezes, tal cuidado chegava ao exagero, e os participantes do evento eram privados de ter com os poetas durantes os jantares. Éramos verdadeiras estrelas. Em certo momento, alguém comentou com Maria Irene que eles nos tratavam como nobres e ela respondeu que não, pois não dispensariam o mesmo cuidado a um nobre. O próprio Stephen, que não era lá muito de fazer elogios, comentou, saciado de um almoço, que aquele era um dos raros momentos onde poderíamos nos alegrar de ser poetas e todos tiveram que concordar, alegres e tristes ao mesmo tempo.

A imagem mais tocante que guardo desse cuidado é a de João Paulo segurando o guarda-chuva para mim. Em dois diferentes momentos que chovia, ele abriu o guarda-chuva e me acompanhou de um local de leitura a outro. Talvez a imagem não esteja suficientemente clara, mas quando falo do João Paulo, estou falando de um distinto e bem apessoado professor da quase milenária Universidade de Coimbra. E lá estava ele, uma clássica figura portuguesa, no sóbrio contorno de um terno cinza escuro, naquela cidade tão antiga quanto a civilização, segurando um guarda-chuva para mim. Eu até insisti para levar o guarda-chuva, mas ele recusou, disse que era seu trabalho. Eu estava tocado, não pela honraria em si, mas pela humildade, algo cada vez mais raro em meu país – era mais do que eu estava acostumado a merecer. Talvez a grande frustração do poeta é ter que ser comum a maior parte do tempo.

No jantar, no Cassino da Figueira da Foz, foi servido um sofisticado cardápio de frutos do mar, mas eu estava tão nervoso que não consegui comer. Só me restava beber, de forma que, quando cheguei para me apresentar no Palácio Sotto-Maior, estava ébrio e sem sapatos. Mas foi necessário só alguns instantes diante do público para me sentir como o Neo na Matrix. Meu nervosismo havia desaparecido. Tinha controle absoluto do meu corpo, do tempo e do espaço à volta. Pude me sentar no chão, ficar alguns instantes em silêncio, pensar delicadamente em cada palavra e pronunciá-las como um murro no mundo, enquanto tangia as cordas do violino com um pauzinho de cabelo roubado da minha namorada. A apresentação de vinte minutos foi a melhor da minha vida e foi intensamente aplaudida. Todos elogiaram muito e a performance foi comentada por dias, alguns dizendo que havia sido a melhor coisa do evento, e isso, naturalmente, me deixou muito orgulhoso. Um dos estudantes da organização veio falando para os outros que não me assistiram: este gajo tirou o sapato e recitou com um violino muito doido. Depois disso não saiu mais da minha cola.

No Hotel, Stephen confessou ter ficado preocupado, quando soube que eu iria usar um violino – temia por alguma coisa patética. Mas, naquele então, não havia parado de elogiar a apresentação. Like a guru, dizia ele, imitando-me tanger o violino com o pauzinho de cabelo, tonc tonc, tonc tonc. E, de fato, durante a performance, ele sentou-se bem perto, ficou muito concentrado e quando terminei veio me abraçar euforicamente: your mother fucker!!!


Quarto dia

A cada dia conheço outros poetas, pratico meu "inglês" e descubro novos doces portugueses. Dessa vez, havia sido apresentado a Xiao Kaiyu, que me presenteou com dois livros em chinês, Forrest Gander, Chó do Guri, Maxim Amelim, Ana Raquel, Gastão Cruz, Arjen Duinker e Nicolle Brossard, todos simpáticos e prosadores de primeira. Os almoços eram uma ótima oportunidade para conversar com os poetas. Forrest e João Rasteiro eram especialmente engraçados e interessados em filosofia. Também dei uma entrevista para a Rita Dahl, que dirige a revista Tuli e Luli na Finlândia.

 

Todos esses poetas eram admiráveis a sua maneira e interessados em conhecer os outros. Sempre que lhes dava um livro, vinham comentar comigo no dia seguinte. Voltei para casa também com mais de cinqüenta livros na mala. Admito que, com tanta simpatia, fiquei um pouco decepcionado com o ambiente literário carioca, do qual já me sentia um pouco distante, e que, agora, já não me interessava de todo. Claro que, quando falo isso, estou salvando os jovens poetas (ainda não contaminados) e, obviamente, aquelas exceções sem as quais o Rio de Janeiro implodiria, tamanha competição, nepotismo e falta de interesse por qualquer coisa que não seja o próprio umbigo. Aos poetas cariocas falta um ensinamento que aprendi com o Boa, o de que é sempre preciso ser um pouco cão.

 

O tema do evento naquele ano, "Poesia e Violência", não poderia ter sido mais bem escolhido, pois eu promovia um verdadeiro massacre com o meu inglês.  No fim, porém, consegui me virar realmente bem. Minha única dificuldade era com Jeniffer Taggart e seu fortíssimo sotaque do meio-oeste americano. Mesmo seu marido John, quase uma caricatura do fazendeiro ianque, não me causava grandes problemas. O pior é que ela parecia simpatizar comigo e sempre tentava puxar conversa. Inevitavelmente eu precisava pegar alguém ao meu lado para traduzir. Era um amor de pessoa, mas precisei fugir toda vez que ela ameaçava vir na minha direção.

À tarde, apareceu no evento um brasileiro de nome Geraldo, me procurando. Ele viajava pela Europa e estava em Porto quando soube do Encontro. Passou a andar conosco, apesar de não poder participar dos jantares. Era um jovem bom de copo e de papo, amigo dos jovens poetas de São Paulo e mantinha um blog onde narrou parte de nossas aventuras.

A noite terminaria com uma performance do Alberto Pimenta, escritor conceituado em Portugal. Era muito interessante o seu trabalho performático-ensaístico no teatro Gil Vicente e ia bem até que, depois de uma hora de evento, Stephen subiu ao palco com um copo de vinho na mão. Não sei exatamente o que disse. Adriana lembra somente de ter dito ao Pimenta, cheio de tédio e farto do falatório: What is poetry?, e, sem uma resposta satisfatória, disse: you don’t know what is poetry.  let’s go and have a drink. Alberto Pimenta, que até então parecia um sujeito safo e que não se levava muito a sério, perdeu a linha, e jogou um pouco de água em Stephen. Não conseguindo contornar a situação, encerrou a primeira parte da apresentação. Houve uma comoção e parte dos presentes boicotou a segunda. Eu tentei ficar até o final, mas a performance-ensaio deu lugar à leitura performática de um poema enfadonho.

Já havíamos passado por uma série de bares, quando José Luis Tavares, o Zeca Afonso, nos convidou para ir a uma boate africana. Mas o Jonathan estava tão bêbado que não pudemos entrar e tivemos que dissuadi-lo, o que não foi uma tarefa fácil, tão obstinado estava o camarada inglês a entrar e conhecer alguma rapariga africana. O trajeto de meia hora até o hotel, nesta noite, levou quatro. Era impossível manter uma marcha normal com tamanha quantidade de pinguços ao meu lado. Jonathan cambaleava e caía a cada passo. Em certo momento veio correndo e jogou-se sobre mim e rolamos por uma ribanceira. Em outro, precisei arrancá-lo de cima de uma estátua, de onde, com o braço estendido, falava, a uma multidão invisível, ser Salazar.


Quinto dia

O último dia de evento amanheceu nublado. Pela manhã, leituras de poesia no Cárcere Acadêmico da Universidade. O lugar era constituído por pesadas celas que, segundo João Paulo, serviam para aprisionar os estudantes que saíam da linha, isso na época em que Portugal era uma superpotência. À tarde, foram todos levados de ônibus até o Palácio de São Marcos, uma construção cercada por jardins franceses e labirintos vivos, onde fomos recebidos por mordomos. Depois de alguns cerimoniais e mais um almoço soberbo, vimos a apresentação de adufeiras em uma capela. As adufeiras eram mulheres da região de Monsanto que guardavam uma tradição oral de canto. Com flores na cabeça e tocando adufes, elas cantavam celestialmente um tipo de música que nem de longe lembrava fado.

Quando as adufeiras terminaram, todos pegaram flores do arranjo sobre suas cabeças e as despedidas começaram. Adriana resolveu voltar com os poetas para o hotel, pois iria nos acompanhar para beber. Voltei conversando com ela no ônibus, enquanto olhava a paisagem. Fiquei admirando a suavidade daquele pedaço de terra que é Portugal, um país realmente interessante, muito moderno e antigo. Adriana me apontou, a distância, o prédio onde morava e aquilo me tocou de alguma maneira que não saberia explicar. A sensação de que todo lugar é moradia, por mais distante que seja. Também revelou-me um pouco da Adriana real, distante da Adriana organizadora do evento, e gostei mais dela por isso.

Resolvemos compensar a melancolia que se abateu sobre todos enchendo a cara de bar em bar. À meia noite, depois de inúmeras taças de vinho, leituras de poesia, uma escultura coletiva com a toalha do bar e sucessivas homenagens às mulheres do evento, alguns foram embora. Sobraram Stephen, Jonathan, Geraldo, os alunos e alunas da organização e eu. Passamos por uns bares e Stephen distribuiu garrafas de vinho, como costumava fazer. De madrugada, liguei do celular do Jonathan, para minha namorada no Rio de Janeiro e, sabe-se lá por que, coloquei todos os bêbados ao meu lado para falar com ela. Stephen aproveitou para flertar, dizendo que apesar de mais velho, tinha muito mais dinheiro.

Durante nossa procissão etílica, paramos em um bar onde puxei conversa com um angolano de nome Agostinho que bebia solitário em um canto e acabei por lhe dar “lições de vida”, apesar de, dele, somente saber que fazia medicina em Coimbra. Eu dizia que ele poderia ser mais que médico se quisesse, que poderia ser um poeta da vida, salvar pessoas não só fisicamente, e todas essas coisas bregas que bêbados eloqüentes gostam de acreditar. No fim do discurso, ele tinha lágrima nos olhos. Eu disse para esquecer que eu estava bêbado e ele respondeu que eu sabia muito bem o que estava dizendo. Abracei-o, presenteei-o com um livro meu e fomos embora.

Consegui levar conosco algumas meninas que estavam no bar, usando o argumento de que o bêbado precisava da presença feminina para beber e que sem elas não havia motivos para encher a cara. Elas pareceram se convencer, pois nos acompanharam até o dia seguinte.

Passamos o resto da noite na ponte sobre o Mondego. Stephen e Jonathan se concentrando em dar em cima da mesma menina, Francisca. Aliás, Stephen dava em cima de qualquer mulher com menos de vinte anos e, para melhorar suas chances, dizia que tinha apenas 50. Ficava o tempo todo falando para os outros: Francisca is mine, como se fôssemos seqüestrá-la quando ele desse as costas ou caísse de tão bêbado. Como íamos, Jonathan, Stephen e eu de carro para Porto no dia seguinte, resolvemos não dormir e chegamos tropeçando hotel adentro às seis horas da manhã. No saguão, Joan Retallack, a poetisa americana que teve longos anos de parceria com John Cage, já estava de pé, esperando a van que a levaria ao aeroporto. Ao vê-la, me ajoelhei, peguei em sua mão e disse: I love the poets, I love the american poets, I love John Cage, I love you. E ela balançou a cabeça rindo: oh, my god...

Resolvemos ir para a padaria e, no caminho, tive que coibir alguns dos alunos fora de si de cometerem vandalismo contra o patrimônio público do seu país. Enquanto voltávamos comendo, alguém teve a idéia de jogar pedaços de pão no Stephen. Ele, que cambaleava alguns passos à frente, foi alvejado por uma chuva de baguetes, mas parecia não ligar.

Levamos Bruno, João Nuno, Francisca e outros alunos de penetra para tomar café no hotel. Na hora de encerrar a conta, Ruy, o balconista disse-me: mas você é o único que não pode ir, você tem que ficar aqui conosco. Aí eu me emocionei e o efeito da bebedeira passou e me manquei que dali a pouco, teria que me despedir daqueles cinco dias tão intensos. Dei um Intradoxos para o Ruy, telefonei uma última vez para o Boa e coloquei minhas malas no carro. No último minuto, Francisca e Geraldo resolveram ir conosco. Nos despedimos de todos que estavam no saguão do hotel esperando suas caronas e partimos para o Norte.

 

 

***

 

Clique aqui para ver algumas fotos do Encontro, feitas por Jennifer Taggart.
 

 

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MÁRCIO-ANDRÉ
é poeta, ensaísta e editor, autor dos livros Movimento Perpétuo e Intradoxos e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck. Edita a revista literária Confraria e passou aser bêbado depois de ir para a Europa. Sua página é www.marcioandre.com

 


 

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