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márcio-andré


o mistério dos bairros 

 

 

 

Se, como vimos no ensaio anterior, a rua é a sintaxe da escrita do caminhar, formando sentenças, frases, aforismos, uma seqüência de nomes criptografados no silêncio das casas, é no bairro que essa escrita compõe as estrofes de um poema. Se falamos da imagem das vias, guardada nos passos do caminhante, relato do movimento e destino de cada um, falaremos agora das ruas em si. Não mais uma imagem para pensá-las enquanto o que e como significam, mas onde e para onde significam, ou seja, o seu mistério propriamente dito, o fascínio bizarro e os elementos oníricos de seus ângulos, nos ângulos dos entroncamentos. Acontece que esse encanto ancestral das ruas, sua complexidade de dobras que se desdobram em outras ruas, chamamos bairro.

É o bairro que dará seqüência à sintaxe das vias. A tridimensionalidade do bairro permite as casas dizer e dizer de outra maneiras. O sentido das frases é o menos funcional possível. As ruas não estão preocupadas em encurtar os caminhos, mas torná-los viáveis. Até porque as frases que formam são tão desconexas quanto as de um poema. Poemas-bairro na epiderme da cidade. Livros-volantes que se escrevem a partir de uma praça central. Como racionalizar as ruas que começam e terminam abruptamente, sem levar a lugar nenhum, ou que, quando levam, o fazem sem encadeamento lógico, a ruas que visivelmente não continuam a anterior?

Abstração administrativa para aquilo que presenciamos concretamente, o bairro surge pelos desígnios do destino. Cada bairro, com sua cosmogonia, sua mitologia e seus ritos, é um módulo móvel, ajustando-se conforme os passos no terreno. Há bairros que sobem na corcova de suas costas de montanhas, e há bairros que se projetam sobre as águas. Apesar de bairro significar limite (e aqui, se aplica propriamente a sua função administrativa, esta, realmente mais imaterial que a concretude de uma casa ou de uma rua), ele diz verso (em todos os sentidos) — um exterior mais interno, um discurso intuitivo (do latim intueri, olhar para dentro) das ruas, concretizado em seus entes: as praças, as fábricas, as igrejas, os cemitérios, as vilas, as favelas. Muito mais que um distrito arbitrário, é a extensão corpórea não corporal das casas, órgão externo onde as ruas respiram se encontrando. E sem esquecer nossa imagem fundamental, percebemos que sua ordenação caótica se deve à imprevisibilidade dos fenômenos celestes, os mais variados, um eclipse, um cometa, uma nebulosa nascendo. Planisférios de estrelas, os bairros correspondem cada um ao desenho de uma constelação. Andaraí segue a carta de Centaurus, Vila Isabel, a de Orion, Quintino, a de Taurus, Irajá, a de Cetus.

Cada rua é para mim um ser vivo e imóvel — compreendemos, nesta frase de João do Rio, a vocação do bairro em atribuir, segundo sua geografia única, sentido e dimensão a cada uma das ruas em seu ventre. Apesar de sua personalidade e hábitos particulares, as ruas não querem outro lugar senão aquele que lhe foi atribuído desde a nascença. Habitam aquela esquina como o velho que lê todo dia seu jornal. O bairro é a plenitude dos caminhos, onde todas as possibilidades de viagem se entrecruzam. Enquanto a imagem da rua, condição de deslocamento, é local, a imagem do bairro, condição de cruzamento das possibilidades, é também temporal. Ali, as casas se encontram no tempo e no espaço.

As esquinas têm a força acumulada das ruas que a formam, e o bairro recebe toda essa energia. É justamente esta potência de possibilidades, temporais e locais, a origem de seu mistério. Obviamente, não se trata de um mero somatório. Um bairro é muito mais que o conjunto de ruas. Sua imagem é a do passado, do presente e do futuro. Não há somente a rua daquele instante, mas também, a rua que foi e a rua que será. Esses outros instantes ainda e já, estão ali, sem hierarquia, contraclacados com o agora. É somente nesse eixo loco-temporal, que é o bairro, que seres isolados em tempos estanques podem se tocar: uma caixa de correio da década de 50 com uma carta de uma semana atrás, uma igreja de 1612 com uma casa moderna, um avô com seu neto.

E, fundação do tempo, o bairro é também o lugar da infância. Quando nascemos nos deparamos com brinquedos sem origens: já estavam lá antes de termos consciência deles. Da mesma forma, já nascemos em um bairro e, antes que saibamos, ele já estava lá, se estranhando de nossa existência. É lá onde aprendemos os nossos primeiros desencontros de pedras, nossas primeiras reações ao mundo, e sempre será, não importa quão longe nos afastemos, o cruzeiro do sul de nossas existências — as ruas que percorreremos na infância até a infância mais distante. O encontro passado e futuro de nossos desencontros. É na força do bairro, toda uma gama de lembrança juvenil e possibilidade futura, que surge seu poema de ruas, criando mistérios em lugares já carregados de mistérios. Os fantasmas de nós mesmos, inchados de lembranças que não podemos suportar, permanecem ali, enquanto vamos rodar o mundo.

Mas não termina aí seu mistério. Os bairros suportam até mesmo lugares em lugares que já existem, escondendo, em seu pulmão cavernoso, as ruas não pensadas:


 

Rua do sobe e desce
Onde o número desaparece


 

Como enfrentar a força avassaladora desse enigma? Essa frase tão utilizada pelas crianças quando indagadas a respeito de seu endereço de brinquedo sempre me evocou uma rua entre um beco e um valão, depois de alguma esquina torta onde os carros só passam de lado. E ainda assim não se poderia ir até lá, rua sem saída que é para os dois lados, as casas confusas de números alternantes. Poderíamos no máximo entrevê-la por cima de algum muro, entre as folhagens de uma mangueira. Ela está justamente no eixo diagonal, intercessão impossível entre dois bairros, e é a rua de toda criança que não volta para casa.

Por tão aguda essa complexidade misteriosa, não é raro encontrar falhas loco-temporais. Quanto menos se utiliza os lugares, mais eles demoram a alcançar o presente. Os limites disso são imprevisíveis. Há bairros inteiros que permanecem no passado, independente de todo esforço que se faça para modernizá-lo — Quintino é um bom exemplo. Em outros casos, essa falha se restringe a uma parte, como os becos de Engenho de Dentro. Às vezes a falha pode incluir um deslocamento local, e volto ao bairro da Saúde. Descer a rua do observatório do Valongo e caminhar até a Marechal Floriano, no Centro, em um fim de semana, é perder-se numa outra realidade urbana — um bairro proletário da antiga União Soviética, um gueto em Lisboa, uma cabeça de porco em Cuba. Poderia ser qualquer lugar, até mesmo o Rio de Janeiro.

Esses lugares desregulados no tempo e no espaço podem se restringir a uma ou duas casas, a um comércio, a uma esquina, a um poste, ou a uns pouco metros de calçada. Em casos raros, somente uma única construção em todo bairro permanece no passado.

Certamente o exemplo mais concreto disto esteja no Caju, o antigo bairro dos banhos imperiais, onde Dom Pedro catava cavalos marinhos para guardar em seu oceano artificial. Hoje, isolado do mundo pelo cemitério, pela baía de Guanabara e pela Av. Brasil, o bairro é quase uma zona-fantasma somente acessado após quilômetros de fábricas de cimento, ferros-velhos e depósitos alfandegários. Em minha primeira e única visita, tive uma surpresa. Logo que cheguei na praça do Caju, deparei-me com um cenário que imediatamente me transportava para longe dali. No meio de uma praça com palmeiras, um único prédio, largo e alto, se destacava. O edifício No. 71 da Rua General Sampaio, não só destoava totalmente do ambiente à volta, como parecia me transportar para a década de 70. Era possivelmente, e falo isso sem nenhuma pesquisa, um prédio para veraneio, bem próximo à praia, da época em que o Caju era ainda um balneário de areias brancas. O prédio, monumento nobre, guardava, ali no coração daqueles dois cemitérios — um humano e outro metálico — o instante de seu auge. Resistia à decadência e à tristeza circundante, refugiando-se naquela praça, sem circulação para aderir a outras temporalidades presentes. Qualquer um que pare por não muito tempo por ali, percebe, inexplicavelmente, um clima de praia, independente do opressivo cenário de containers e guindastes à volta. Sentado sob as palmeira, essa impressão me parecia tão intensa, que resolvi procurá-la. Caminhei por todas as ruas que seguiam dali e, em todos os casos, cheguei apenas, e várias vezes, aos enormes portões da zona portuária. A praia já não existia. Mas ela estava ali, de alguma forma, colada ao edifício. Era possível, sentado num dos bancos da praça, ouvir o marulhar das ondas, o grito dos banhistas descendo em massa dos ônibus, o alto-falante do vendedor de picolé Yopa. Podia imaginar ao lado o colorido dos guarda-sóis, das cabines listradas, o antiquado calção do salva-vidas. Não sei se essa época existiu para o Caju, mas estava ali, presente. Com um leve virar de cabeça, voltava para o Caju de hoje, com seu intenso fluxo de caminhões excessivamente barulhentos. Era como se houvesse dois lugares num mesmo lugar. Um que, por falta de uso, permaneceu uns trinta anos no passado, e outro que se perdeu no uso abusivo pela ânsia do desenvolvimento. Entristeci-me ao imaginar os moradores mais antigos do bairro, que aos poucos foram vendo suas praias serem aterradas e tomadas por cargueiros grandes e negros.

A tão esperada modernização, o desenvolvimento econômico, vai pouco a pouco apagando a incógnita do passado. Os bairros sem história, sem origem, e por isso fascinantes, vão sendo compartimentados pelo estudo de seus documentos. Tudo re-alocado de maneira capenga e deficiente, entre o velho, o novo e o incompleto. Vão se expulsando os fantasmas, cultivados com tanto esmero nas coisas usadas, heranças de família, em função da descartabilidade dos bens de consumo. Ensaca-se a vácuo, o tempo e o espaço. Derruba-se a casa mal-assombrada e ergue-se um hipermercado. Os fantasmas vagantes de nossos vivos e mortos, apegados à memória do lugar, perderam suas moradas. Tudo sempre novo, brilhoso, iluminado, ficam vagando, viram encosto em alguma igreja.

Sinto um enorme pesar ao imaginar que as próximas gerações talvez não venham a viver no bairro como os conhecemos. À medida que o projeto de globalização avança, o sentido tão local de um bairro vai perdendo a força. O bairro e tudo que comporta, seus blocos de carnaval, suas festas juninas, seus clubes de futebol, seus parquinhos de diversão, seus cinemas à beira da rua, as pracinhas, talvez não exista mais, reduzido a mero obstáculo entre os lugares — setor-dormitório apenas. Não se vive mais as ruas do bairro, destituídas que foram de seu equilíbrio gravitacional, para dar lugar aos shoppings e aos hipermercados que neles concentram todas as lojas, todos os cinemas, todas as lanchonetes e toda a vida. O passeio noturno substituído pelo eterno dia dos corredores refrigerados a ar. O Shopping não pertence ao bairro. Ele está lá, mas sua arquitetura alheia a tudo, sua propensão à assepsia e à padronização, o torna um tumor onde antes havia um matagal. Nem mesmo as manhãs mais existem, subsistindo como intervalo temporal entre a residência e o trabalho. Pertencem aos engarrafamentos e aos ônibus lotados. Nos finais de semana, se prestam a um sono merecido do enfado de uma vida vazia.

Como sempre, os bairros menos centrais, por sua marginalidade forçada, por serem depósito de toda rebarba do desenvolvimento industrial, acabam concentrando ainda mais fortemente essa desorientação temporal, esse desequilíbrio de ser que constitui o mistério das ruas. O encanto natural da poética das casas se mistura a alterações forçadas, como no Caju. Surgem, além dos sonhos, os pesadelos. As ruas deliram, intensificam, ao contrário do imaginado, o mistério de sua temporalidade. No outro extremo, os bairros, cada vez mais regrados, sob a norma da assepsia urbana, sem pesadelos, sem sonhos, sem riscos. Ao expurgar as impurezas, decaem no triste processo de correção plástica dos centros globais. Puros, iluminados e sem paixão. Para viver o mistério dos bairros é preciso entregar-se sem julgamento aos seus constantes caprichos, aos seus meandros de poeta. A poesia dos bairros no uso constante de suas ruas, na força de atração de um canto escuro, de um beco arborizado, ou de uma fábrica abandonada. Sua combinação aparentemente aleatória transforma e constrói o destino de nossos caminhos. Um caminhar à beira do canal, como em toda bela poesia, pode surpreender com o desfecho incômodo de uma passarela decadente numa rua sem saída. Após a travessia forçada por esse verso violento, recebemos o sentido supremo que se revela em cada poema, neste caso um poema-vida. Enfim, como todo poema verdadeiro, somos submetidos nus às mais pesadas imagens de nossos sonhos e pesadelos, levados pelas mão, desde a origem de nosso corpo, pelo mosaico possível das vias e possibilidades. O mistério da vida, nisto consiste o mistério dos bairros.
 

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MÁRCIO-ANDRÉ é poeta, músico, editor e design, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita a revista literária Confraria. Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com

 


 

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