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a poética das casas

 

 

 

As casas dos homens formam constelações sobre a terra — Eu poderia ter começado o ensaio da edição passada com esta frase de Gaston Bachelard, que tão bem ilustra a correspondência que eu havia proposto entre as casas e o céu, se eu não a tivesse lido somente após a publicação do ensaio. Creio impossível, agora que pretendo pormenorizar alguns detalhes sobre as casas, ignorar o fato de que sua origem (e falo origem como algo que se origina sempre) seja celeste. Assim como o cosmos, a casa é uma sintaxe do espaço. É fundamental, vale ressaltar, que não se interprete esta afirmação como metafórica. A relação, tal como se dá na poética essencial das coisas, é concreta e palpável. Quem já teve a oportunidade de estar numa olaria, pôde sentir intensamente a carne pulsante das estrelas entrando pela chaminé até firmar o barro dos tijolos, ali na origem de todo o sonho de moradia, na gênese de todo o desejo humano do sobre-humano. Não é a fumaça que sai a disputar nuvens com o céu, é o céu que nos chama pela chaminé. Hermafrodita a terra, com seus falos de olaria.

Eis um outro testemunho dessa relação domu-cósmica, dessa vez de Ítalo Calvino, a respeito de uma de suas cidades invisíveis:

Mediante minuciosa regulamentação, a vida da cidade flui com a calma do movimento dos corpos celestes e adquire a necessidade dos fenômenos não sujeitos ao arbítrio humano.

Mas não há, e Calvino o sabe, uma correspondência de mão única. Mais adiante é dito:

A correspondência entre a nossa cidade e o céu é tão perfeita — responderam —, que cada mudança em Ândria comporta alguma novidade nas estrelas.

Muito mais que mera “fantasia literária”, essa influência da cidade nos céus, é a mais concreta afirmação e pressuposto de nossa mundificação. A prova cabal de que somos homens habitantes de casas, pois o mundo nada mais é que espaço entre, dentro e fora das casas. Se pensarmos que foi somente na renascença, com seu desenvolvimento técnico na área principalmente da pintura, que pudemos chegar à atual imagem da lua, (antes disso, não éramos capazes de vê-la como a vemos hoje, com detalhes de crateras e rostos, simplesmente porque não a desenhávamos assim), entendemos que só enxergamos nos astros aquilo que podemos/queremos ver. Pintada por outros povos, a lua é outra, logo, o céu é outro e as casas são outras. Cada casa oferta uma lua e um céu. O céu de cada cidade é um outro céu — e o céu é possibilidade e possibilitado por um mundo.

Nos ensaios subseqüentes a este, pretendo me deter um pouco mais sobre as ruas, os bairros, as cidades — extensões corpóreas das casas — por isso, devo aqui me ater um pouco mais sobre as casas, propriamente ditas. É claro que não há realmente uma separação entre esses temas. Ruas, casas, bairros, cidades são apenas nomes diferentes para as diferentes dimensões de nosso corpo. Esferas de delimitações, variações outras das cinco peles do homem, propostas por Hundertwasser.

Propor uma poética das casas não é tarefa fácil. Aliás, propor qualquer poética autêntica é um desafio. A formulação de uma poética pressupõe uma reavaliação na maneira de ser e sentir. Devemos compreender que nós, homens moderno-ocidental-greco-latino-judaico-cristão-capitalistas nascemos num mundo onde quase toda ação humana já se configura segundo uma lógica de causalidade. Relações interpessoais, desejos de consumo, empenhos e planos profissionais, tudo perpassa por um sentido instrumental da existência, onde só existimos porque nos tornamos instrumentos. A rotina é seu efeito colateral mais evidente, e o pior empecilho para se criar essa tal poética das casas. O sistema de produção, reprodução e consumo, a alienação, destrói toda possibilidade de se pensar fora do que uma casa pode nos oferecer como utensílio de habitação. Somos capazes de caminhar por uma rua durante anos e jamais perceber as casas conversando e agindo diariamente sobre nossa presença. As casas são obras que, separadas ou em conjunto, precisam ser lidas por quem as cruza. Mas nós, leitores possíveis dessa obra sem autor, não assumimos essa responsabilidade. Isto porque sempre estamos permeados pela pergunta: de que vale objetivamente essa leitura? Entre tantas coisas úteis, por que se deter em uma tarefa tão inútil?

Uma poética das casas propõe uma libertação, antes de tudo, do que entendemos por útil e inútil. Não deixa de ser uma atitude política, porém não é libertação de um governo, de uma prisão, de uma força configurada, mas de um sistema de pensamento e de ação, fundamentado até a raiz de nossa maneira de ser. Para ver a verdadeira face das casas, somos nós que precisamos mudar, não as casas. Mas como nos libertar quando é o próprio sistema que nos permite viver e nos relacionar, que nos faz caminhar os mesmo caminhos todos os dias, que, entre a chuva e o aluguel, nos exclui o sonho? O utilitário nos levou à exclusão e ao medo de caminhar, origens da violência. Pois a violência, antes de ser um problema sociológico de inadequação humana ao projeto civilizatório, é um problema geográfico de um mundo onde as casas vão sendo alocadas em função das fábricas, da poluição e da miséria — enquanto forçam um paraíso artificial, os condomínios de luxo, os bairros planejados e com alta "qualidade" de vida, para uma parcela ínfima de escolhidos.

Para pensar essa poética, precisamos compreender que a essência da casa, sua correlação perfeita com o céu, nos remonta à nossa ascendência divina. Cada dia que passamos entre suas portas e janelas, vamos suavemente retomando nossa natureza celestial. É por isso que “morar” significa esperar, aguardar. A casa nos gesta com seu útero de alvenaria. É nela que esperamos calmamente por nosso destino de humanidade. As casas têm esse poder, inclusive as dos bairros menos centrais, menos contaminadas com os modelos da retificação estética e moral. Entretanto, as casas não poderiam se formar como são se não fosse o estado do mundo como é. Grande ironia! A beleza está justamente em se desabituar das coisas para voltar a um momento pré-coisas, e, como o poeta ou o filósofo, dizer o mundo a primeira vez. Olhar a casa, e como um anjo winwenderiano, dizer: ah, uma casa! Dizer a casa é sonhar a casa. Renomear é sempre um ato humano, por isso divino.

Uma poética das casas se perfaz caminhando — volto a dizer. Sonhar as casas é uma tarefa para aquele que não tem medo de perder-se de si. As casas não têm donos, as casas apenas moram com aqueles que nelas moram e, como um útero materno, podem morar e gestar gerações sem nunca se extinguir. Os fantasmas de uma casa se apegam à moradia, não à casa — e lá de-moram. Sonhar as casas é sonhar o outro, nossos possíveis eus. Não há espaço para o ego evocado pelos anúncios imobiliários, não há espaço para uma relação objetiva, subjetiva, ou de especulação. Sonhar as casas é ser solitário até de si mesmo, enquanto se perfaz, passo a passo, o trajeto que os muros vão formando para nós. É nesse momento, perdidos em nosso não-estado de ser, que as casas começam a nos evocar.

Se algum dos leitores fez o exercício proposto no ensaio anterior, o de caminhar pelos lugares mais afastados, menos pitorescos, já deve ter formulado um pouco dessa poética. O fato de alguns lugares serem tristes e deprimentes não tira sua beleza. Pelo contrário, cria possibilidades outras de serem percebidos. Este leitor aventureiro já deve ter descoberto que há casas aeradas que nos permitem voar e há casas presas no chão, casas infladas e casas flaciformes, casas plácidas e casas tempestuosas. Mas, antes de tudo, já deve ter percebido que tal poética não se formula, se experiencia.

Caso contrário, como descrever a casa de número 222 na Avenida dos Italianos, no bairro de Rocha Miranda, no Rio de Janeiro — uma casa humilde, antiga e mal cuidada, de uma época de carroças, mas com vista para a subida de um viaduto? Ou a fila de meáguas ao lado? Como explicar sua presença, seu sentido, o fascínio que causa pela sua própria melancolia? Não são casas belas, no sentido tradicional, mas tive a sensação, no instante em que as descobria, que eram as casas mais delicadas que testemunhei. E, naquele instante, o medo era uma dúvida: até quando serão elas? As casas choram quando perguntamos isso, pois não há respostas. Cabe-nos somente cogitar humanamente: qual sua história? Quais as esperanças daqueles que a construíram? Quais as vidas daqueles que esperaram anoitecer, sofreram e se alegraram entre suas paredes...?

E quem, afinal, se senta nos bancos da pracinha do outro lado da rua (praticamente em frente à casa, caso o viaduto não estivesse entre elas)? Eu duvido que alguém o faça. Principalmente os moradores da casa. Mas então, por que a construíram? Evoca-me sonhos de solidão e distância. E como explicar a imagem inspirada pela casa de número 1231 da estrada do Colégio, navegando no ladrilho do seu quintal de muro baixo? Um desejo de infâncias não cumpridas, perdidas na memória azul por cima da garagem, por cima dos terraços, por cima de tantos telhados visinhos impossíveis de chegar. Quão fácil é se perder no mundo miniatura daquele quintal, quão fácil é atravessar o muro para casa ao lado, e nunca mais voltar.


Talvez, nos lugares menos visados, as ruas sejam mais autênticas, semoventes dos espaços, livres do excesso de imagens pensadas sobre elas. Não precisam ser turísticas ou limpas. Não precisam de comércio intenso, nem de luxo, nem de beleza, nem de encanto. Podem ser modeladas pelo acaso. Suas casas são únicas, resistentes a estereótipos, sujeitas aos devaneios.


Se aceitarmos que as casas são para serem sonhadas e, por isso, estão na origem dos sonhos, não é difícil entender, por exemplo, a casa palito na cidade de Madre de Deus. Uma casa de três andares com apenas um metro e dez de largura só é estranha se nos limitarmos às suas funções práticas ou estéticas. Ou um sobrado em Cavalcante, subúrbio do Rio, que lembra vagamente um cogumelo. Não só o prédio, isolado numa praça triangular, cortado ao meio e mais largo no segundo andar que na base, mas todo o ambiente a volta parece ter saído de um devaneio bizarro à beira da linha do trem. Por que esses lugares existem ao invés de serem sonhos? — eis aí a bela questão a ser considerada.

 

Por ser celeste, a casa é também onírica — As casas só são impermeáveis porque deliram de chuva. Cada casa desperta um sonho de estadia nos transeuntes, cada casa leva um nome, cada casa se consome de mistérios, cada casa é um diálogo entre a vida e a morte. O quintal é seu contraforte espiritual, despressurização necessária até se chegar à rua, um rosto banguela, enquanto o quintal dos fundos é seu espaço de mistério, seu ninho de pesadelo e silêncio — o fundo das casas tem vista para a eternidade. Cada casa é senão um sonho de outra casa, assim como cada vida está no extremo de outras vidas. Eis a poética a ser formulada.

Bachelard, no mesmo livro em que faz a citação com a qual eu começo o texto, invoca uma psicanálise das casas, mas faz isso a partir de casas européias, com porões e sótãos. Uma psicanálise é aplicada à mente, mas a casa, principalmente em nosso país, não é mente, é corpo, e corpo sólido, imprensado contra outros corpos. A poética das casas não exige livros, exige sapatos. A poética das casas pressupõe a descoberta das intercessões do dia, onde a vida é mais delicada. Pressupõe a sagração do instante, a ameaça constante da morte. A poética das casas se inscreve no livro do chão como escritura das estrelas. E se faz pela leitura das fachadas, pelo levantamento das portas e janelas de uma rua, pelo pulso dos encanamentos que é puro ar. Se faz pelas diferentes cores e formatos e telhas e quintais e muros e varandas e paredes e árvores. Pelas suas possibilidades infinitas de serem unicamente chamadas de casas. E só depois de muito tempo compondo essa poética é que podemos superar nossa arrogância e aceitar que as casas não existem por nossa causa, mas que, ao contrário, só existamos por causa das casas.

 


MÁRCIO-ANDRÉ é poeta, contista e músico, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita a revista literária Confraria. Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com

 


 

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