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ezra pound
para uma cultura nacional
Uma cultura é nacional, ou
racial, quando as obras que ela criou (belas-artes, literatura) não têm
por que desculpar-se de pertencer a tal ou tal raça ou nação, e que elas
não o fazem. Existiu uma cultura americana de 1770 a 1861 pelo menos.
Jefferson não podia imaginar que um americano escolhesse viver na Europa.
Após a ruína da cultura nacional os indivíduos que desejavam conservar os
restos do que foi feito tiveram que se expatriar. Este não era talvez
menos americano mas era, em um sentido preciso, menos nacional, no momento
em que a maldita usurocracia punha a União sob seu poder, e ganhava
terreno regularmente.
A distinção entre nacionalismo e não-absorção precisa ser aprofundada.
Nossa cultura revolucionária era critica e cosmopolita. Uma cultura pode
ser nacional enquanto ela escolhe as culturas nas quais ela se inspira.
Ela afunda num pântano a partir do momento em que se degenera em
esnobismo, a partir do momento em que aceita tudo aquilo que lhe vem do
exterior. Não se encontra nenhum sentimento de inferioridade na literatura
do período Jefferson-Adams. Os Estados Unidos foram respeitados pelo menos
até 1850. Um americano não tinha por que ruborizar-se: a Europa não
considerava seu pais como um enorme queijo mas como um exemplo e um
modelo.
Uma cultura americana existiu, existe ainda em toda a obra que se impõe no
exterior. Sua qualidade se mede por esta reação.
É preciso igualmente
distinguir entre cultura nacional (ou racial) e mercado metropolitano. Os
critérios de escoamento rápido, de beneficio imediato, etc., convêm à
brilhantina da Broadway. O fato de que a imitação e a mercadoria ordinária
vende-se bem é apenas um sinal de provincialismo. Todas essas observações
são talvez lugares comuns, mas era preciso limpar o terreno.
Temos os meios de reconstruir ou de reunir aquilo que resta da cultura
americana.
É possível assimilar e aplicar critérios elevados, de nível
internacional. Seria preciso que nós pudéssemos estabelecer uma troca de
informações entre os indivíduos que compõem essa reserva, esse motor da
cultura.
Não basta um simples desejo para fazer surgir do nada uma falange de
grandes escritores ou de gênios. Mas se poderia fixar um certo nível de
integridade intelectual, ser de uma radical e candente intolerância contra
a negligência e a má fé habituais.
Poder-se-ia eliminar certos erros (dos quais se aproveitam as pessoas de
má índole). Poder-se-ia tentar organizar uma correspondência regular entre
aqueles americanos que preferem a boa literatura à má, ou que a escrevem.
Atualmente nenhum periódico
fornece uma única informação, mesmo rudimentar, sobre o pensamento
americano, nem, certamente, o confronta com o pensamento vivo dos outros
países. Furtar-se a uma tal confrontação é prova de covardia. É a maneira
de ser de nossa época mercantil, na América e em toda parte.
Não vejo como a cultura americana poderia reviver quando Marx e Lenin têm
edições de cem mil exemplares vendidos a 10 e 25 centavos, enquanto Adams
e Jefferson estão fora do alcance do homem comum — fora de meu alcance
pois há três anos procuro em vão comprar a correspondência de John Adams.
Aqueles que impedem o exame das causas monetárias e financeiras que se
encontram na origem dos acontecimentos históricos são uma inumerável
podridão. Este exame é necessário, que se estude o período que precedeu a
guerra de 1860 e a queda de nossa civilização, ou aquele que precedeu a
última guerra. Nós, médicos do espírito, não encontraremos repouso
enquanto não tivemos o serum que eliminará dos Estados Unidos aqueles que
impediram este estudo, voluntariamente ou por omissão. O obstáculo, na
maioria dos casos, é uma mistura de preguiça, de medo e de avidez.
Seria preciso acabar com a
degradação da terminologia. Já é tempo de definir claramente as palavras
que empregamos. Em primeiro lugar os termos econômicos, depois todos os
outros. Não se trata de uma revolução da linguagem, mas de uma depuração.
E esta depuração deve preceder qualquer reforma.
Uma administração que não pode, ou não ousa definir a moeda, o crédito, a
dívida, a propriedade, o capital, uma administração dessas tem poucas
chances de encontrar uma solução durável para o caos da nação, ou de
elaborar uma ordem permanente.
Endereço esse manifesto a algumas dúzias de homens justos para saber se
eles querem evadir-se da atmosfera sufocante, do lamaçal moral onde estão
mergulhados.
Será que seis dúzias ou seis centenas de americanos dão bastante valor a
uma cultura nacional para conservá-la.
A) Pela reedição metódica das provas de sua existência passada?
B) Pela divulgação regular de sua produção atual?
C) Pela proteção dos critérios que impediriam qualquer recaída no
narcisismo que reinava no fim do século dezenove?
Estão eles prontos a tomar outras medidas concretas? Quais? Jefferson e
Adams estavam em posição de escolher entre a opinião da Inglaterra e a da
França sobre um dado problema. O esnobe, o membro da geração de Harvey ou
seu equivalente moderno está lá para jurar ao simplório que Londres disse
isso ou aquilo. Mercador de brilhantina, que quer tirar proveito o mais
depressa possível explorando um capricho ou uma moda.
Não se pode enxergar mais claramente a degenerescência da edição americana
sabendo-se que, de 1917 a 1919, seu centro de atividade deslocou-se de
Londres para Nova Iorque, um pouco mais tarde para Paris. Nada aconteceu
em Nova Iorque até 1930 e Londres tornou a ser o centro da vida literária.
Isso mostra o esquecimento, o desprezo com que é considerada a cultura
nacional. A cultura permanece individual enquanto o homem que possui um
talento original for EXPULSO de seu meio pelas condições materiais (econômicas)
e pela imbecilidade ou a incapacidade desse meio de sustentar e coordenar os esforços dos indivíduos.
Concretamente, se os artistas americanos só podem encontrar-se e se
comunicar na Europa, não se verá a cultura nacional sob o seu melhor
aspecto. O provincialismo traduz-se de quatro maneiras diferentes:
Um, ele macaqueia de modo estúpido as modas estrangeiras.
Dois, ele mostra uma timidez e um medo absurdo quando se trata de aceitar
uma obra estrangeira fora das normas.
Três, ele negligencia as melhores produções nacionais.
Quatro, ele incenseia e leva às nuvens imbecilidades porque elas são
nacionais.
É preciso um mínimo de ingredientes para fazer uma cultura nacional. Se a
autenticidade é inconsciente, trata-se ainda de folclore. Qualquer fase
ulterior deve necessariamente incluir critérios comparáveis aos melhores
critérios estrangeiros. Em um certo sentido se poderia quase escrever: não
há critérios estrangeiros. Naturalmente os vendedores de gomalina não
agüentariam o golpe nem uma semana. Os "espertos" só alcançam uma vez o
nível europeu. O sétimo número de não importa que revista gomada, se
renova constantemente. Não se pode confundir "Cantleman's Spring Mate"
com um capitulo de "Ulysses"
E, ou deveria ser evidente que Henry James
não esperava nenhum favor de seus contemporâneos franceses ou ingleses.
Seus livros se vendiam muito bem na França por volta de 1880. Em seguida
as vendas diminuíram porque ele ultrapassava seus leitores, não por que
ele estivesse abaixo do nível europeu.
Suponho que afinal das contas Jimmy Whistler não é um pintor tão bom quanto
Manet, mas ele teve a celebridade que merecia, pelo menos. Não me lembro
de nenhum pintor inglês de sua época que apareça em um poema de Mallarmé.
Não se pode dizer que o Sr. Eliot ou eu mesmo, em nosso tempo, tenhamos
considerado os poetas ingleses da época como nossos Mestres. Não se pode dizer
que o sabor antes de tudo americano da obra do Sr. Eliot tenha sido
alterada por uma modificação de seu passaporte. A naturalização de Henry
James em seu leito de morte foi o último desafio que ele poderia lançar
contra os canalhas da Casa Branca.
Eliot deu uma excelente definição da Inglaterra alguns anos antes de
efetuar sua mutação administrativa
escorrega
contra os flancos murchos
Para guardar ao calor nossa
metafísica.
Isso sai de Gautier e de um livro de cânticos do Massachusetts, mas não
tem o caminhar mole e rastejante dos Vitorianos.
Williams é americano por programa, e sua cor local, embora artificial,
possui uma atração imediata. Sua verdade profunda, malgrado um verniz
provincial, cravou-se mesmo no crânio estúpido de alguns jovens ingleses.
Um dos melhores exemplos que
existem, mas além disso a prova de que a raça é mais forte que os
princípios.
A cultura americana é franco-inglesa, ela saiu daquilo que tinham em seus
ossos os únicos ingleses que algum dia rejeitaram a tirania do
imperialismo britânico. Depois disso ela foi iluminada, singularizada pela
contribuição do espírito francês, e, pelo que sei, do clima local.
Henry James é tão "Nova Inglaterra" quanto Henry Adams, pois são da mesma
raça, e sua educação lhes trouxe os mesmos ingredientes. A cultura
nacional estava presente em Jefferson Adams. Van Buren estava por demais
absorvido pelos serviços que prestava à nação para aprender grande coisa
dela. Se ele tivesse tido um pouco de repouso, o que é difícil de imaginar,
creio que teria absorvido uma boa parte.
Os bem-pensantes começaram por ignorar Whitman, depois não viram seu lado
exótico.
Williams é internacional. Mas
Cummings, que suas duas obras mais importantes conduziram ao estrangeiro (Enormous
Room e a Rússia de Eimi), é para sempre uma "Nova Inglaterra". E ele é,
para enunciar uma verdade de La Palice, "o único descendente vivo de
Whitman''.
É provável, é a impressão que tenho, que eu me teria expressado mais cedo
de maneira coerente se eu fosse também "Nova Inglaterra", se não tivesse
ocorrido a dispersão de cinco ou seis gerações de emigrantes no Continente
inteiro.
Zukofski está na linha americana quando escreve seus ensaios sobre Henry James e
Meet Baruch Spinoza.
Quanto à margarina e à imitação
A pseudocultura quer
absolutamente ficar vinte anos atrás da Europa. Sempre aconselhei o
contrário. Toda a imprensa é a favor. Não há nada a fazer para que os
jornais americanos dêem informações recentes sobre a Europa.
Para concluir, e antes que eu
delire, preconizo;
UM: uma decisão sobre as
raízes de nossa cultura nacional.
DOIS: um programa construtivo e sério, completado por todas as
possibilidades de organização, antes que eu ouça mais uma palavra sobre um
programa destrutivo.
Quero dizer que não se aplicou uma das possibilidades da Constituição — a
escória que infesta a Casa Branca desde o começo do século não o fez e não
ousa: trata-se do direito que tem o Congresso de estabelecer o valor do
dinheiro.
No tempo de Jackson e de Van Buren tínhamos as bases de uma ordem social.
Uma nova ordem deve apoiar-se nessas fundações. A partir dai poderemos
encarar a modernização e outros detalhes, decidir a que ponto uma
formulação mais moderna é possível, e desejável. Por possível, quero dizer
que se possa, começá-la em tempo, em nossa época, sem vagas analogias com
as necessidades e as possibilidades da Europa. Uma ORDEM, sim. Mas uma
ordem necessariamente americana. É preciso certamente uma dilectio
voluntatis, mas que leve em conta, ao elaborar os detalhes do
programa, suas forças, e os obstáculo, que encontrará. O materialismo só
se justifica para homem de bom senso face a face com os doutrinários que
não compreendem a realidade destes obstáculo. Assim como o imobilismo,
também não é uma filosofia. Digna de sub-homens. Ainda que esta reação extrema seja compreensível num pensador de vistas curtas tomado pela
irritação. Nem o pobre Carlinhos Marx conseguiu introduzir o materialismo
em sua teoria dos valores, e a Rússia atual sabe muito que não é um
sistema viável.
Todo o blá-blá-blá democrático, isto é, os clichês, os
preconceitos, a mania do "povo" em todos os molhos, tudo deriva da
incompreensão e da perversão. Perversão das idéias pelas palavras e seu
emprego abusivo.
Vocês podem observar a
desigualdade dos seres humanos, se quiserem passar algum tempo, com o
Jornal Inglês (para os alunos do ensino secundário). Os homens não são
mais iguais do que os animais. Jefferson jamais o pensou. Digo Jefferson,
porque se poderia tomar J. Adams por um monarquista, que ele aliás não
era. Digo Jefferson porque quero o caso limite, o inventor ou empresário
de nossa democracia.
Igualdade diante da lei, igualdade no sentido em que não há obstáculos
insuperáveis impostos por uma classificação arbitrária, um sistema de
categorias preestabelecidas. Liberdade: a de fazer aquilo que não
prejudica o próximo.
Não é preciso várias dezenas de anos, malgrado nossa barbárie, nossa total
incompetência, para ESTABELECER uma ordem e uma hierarquia. Não podemos
nem mesmo criar, em todo o caso não temos, um honesto clube do livro, uma
organização que permita as poucas centenas de homens de valor da
intelligentsia (por mais baixo que seja seu nível) de se comunicar entre
eles, de trocar suas idéias. E enquanto não for possível a um grupo desses
intelectuais de organizar-se, ou, pelo menos, de criar um exemplo, não se
pode esperar que os 120 milhões ou mais sigam este exemplo.
Temos, Deus tenha piedade de nós, uma "Academia". Está organizada? Tem um
estatuto oficial ou qualquer outro? Um de seus membros pode nos informar o
que fez? Tem pelo menos um boletim? Arquivos?
Não é em cada dez anos que Flaubert pode encontrar Tourgueniev em casa dos
Goncourt, e não se pode criar sob encomenda trinta ou duzentos homens de
talento, mas se PODERIA pelo menos conservar um certo nível de honestidade
intelectual. Poder-se-ia pelo menos protestar contra as trapaças mais
flagrantes, as práticas infames da imprensa e da edição, os erros mais
gritantes dos chamados livros de referência.
Trinta ou duzentas pessoas "eleitas" pelos serviços eminentes que
prestaram à literatura americana poderiam, se elas fossem outra coisa que
não marionetes, exigir e obter a publicação do essencial de nossa herança.
Se possuíssem um átomo de sentido cívico, sua recomendação tornaria a
operação materialmente factível e rentável.
As inúmeras bibliotecas-cemitérios das inumeráveis pseudo-universidades ou
aquilo que as substitui, mais as (ditas) bibliotecas (que são chamadas de)
públicas, absorveriam (é a palavra justa) exemplares suficientes para
cobrir os gastos de impressão.
Enquanto vocês não tiverem destruído com ácido as raízes do espírito
mercantil, não terão uma América decente. O Sat(urday) Ev(ening) Post fez
uma enorme publicidade para Ivar Kreuger, apresentou-o como sendo muito
mais do que um titã financeiro. Trata-se ainda do reino dos bajuladores e
dos lambe-botas.
O primeiro passo NA DIREÇÃO DE UMA CULTURA NACIONAL é um inventário: o
que há
de sólido. O segundo é torná-lo utilizável e facilitar o seu acesso.
tradução de Yvonne Táti
EZRA POUND é considerado um dos maiores poetas do século XX. No
Brasil foi popularizado, sobretudo, pelos irmãos Campos, que, entre outras
coisas, seguiram à risca algumas de suas proposições teóricas. Pound, além
de poeta, foi um fomentador das artes de seu tempo, lançando artistas que
hoje figuram no cânone da língua inglesa, como James Joyce, T. S. Eliot e
E. E. Cummings. Entretanto, devido a tomadas de posições
fascistas, foi preso pelo governo norte-americano, acusado de alta traição, durante a segunda
guerra mundial, e seu nome, durante algum tempo, foi usado com reservas no
meio literário. O ensaio publicado aqui, um dos mais citados, foi editado
pela
primeira vez numa raríssima edição do Caderno Rio Arte, dedicada a Pound e
organizada por Gerardo Mello Mourão.
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