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Estava cá
comigo bem tranqüilo com a idéia de que os textos se comportariam
diferentemente, dependendo de certas operações de sempre que fizéssemos
com as palavras, para que as palavras, em sucessão, complementação ou
conflito, dissessem mais do que costumam dizer a uns e outros mais
distraídos. Estava concentrado nisso...
Era quase uma obviedade de alguém que obviamente se via como uma espécie
de sábio, que achava que podia diligentemente dar conta das diferenças
entre tudo o que é lido, dito ou escrito.
Seria prosaico, não fosse patético – ou trágico? – esse esforço literário
de Sísifo – ou tolice mesmo? – de catalogar os traços da língua...
Mas a língua deve correr solta...
Ainda que exista um texto para se ver (poesia concreta), outro para se ler
(a narração que remete ao imaginário) e ainda aqueles para se ouvir
(letras de canções, a cadência do rap, das ladainhas e dos ritos
religiosos), tem gente que tem o desplante, o desembaraço ou a sintonia
fina para captar as filigranas do que cada uma dessas “modalidades” tem de
comum.
Isso não é normal, nem corriqueiro e a língua que deixaram correr solta
por aí nestas páginas se embaraçou numa trança que confundiu a confiança
do que eu supunha saber das coisas das letras e dos seus papéis neste
mundo!
Aquele meu mundo caiu e foi Victor Paes o responsável pela minha alegre
desilusão, pois a sofisticação desse sábio letrado consiste justamente em
operar nos limites e linhas de força da língua, e explodi-los em sons,
vozes e paisagens inteiras à disposição do leitor.
Cada aspecto dessa exposição poética guarda em si mesmo forma e fala,
criando no espaço branco a sua partitura, dando voz tridimensional para o
que está, em tese, preso no chão silencioso da página.
Verte dessa sabedoria uma espécie de “música em expansão”, coletando o que
parte de dentro de cada um de nós – dos sons dos órgãos, do molhado do
sangue e da secura dos ossos – até o plano externo da grande paisagem em
imagens de cinemascope.
É uma grande viagem que Victor faz. Vem, vai e marca seu caminho com a
precisão de um guia. São encontros e desencontros tramados por versos
afiados, que separam o joio do melodrama do trigo da fatalidade.
Há coisa mais óbvia do que o fato de que somos limitados por dentro e
excitados por fora?
Estamos aqui para viver, ler e escrever.
Em qual ordem mesmo?
Ordem tem algo a ver com isso?
Não. É uma questão de sobrevivência...
Precisamos viver.
Deveríamos, ao menos, tentar fazê-lo. Exercermos todas as possibilidades e
significados, antes de voltarmos ao pó dos livros de condolências.
Aqui há muitas experiências desse tipo.
Encham os pulmões para conhecer.
É um pouco como a ciência de respirar... Porque você vai precisar de ar
para entender a complexidade do que é tão simples.
Comece abrindo o que tem nas mãos...
O resto Victor abrirá por si mesmo.
Fernando Bonassi
leia aqui resenha sobre este livro no Cronópios
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