O HÁ NOS ARRANJOS PARA ASSOBIO

 

Antônio Bizerra

O que há de mais fascinante na Arte é a criação de realidades. Não há nada de complicado nisso. Não é preciso que se mergulhe em teóricos e pensadores para poder entendê-lo, ou melhor, não entender, sentir. Contudo, sem ignorar que a busca pelo bom ensaio, que é aquele que você leitor poderá descobrir, é também necessário, a fim de que se conheça discursos sobre a obra, e, aqui, mais uma vez, deixo a você leitor que se utilize do crivo de seu bom senso, aquilo que, no fundo no fundo, lhe sôa como sincero; daí, estabelecem-se diálogos, fazendo a obra vibrar mais vivaz.


Fundadora porque criadora, e não somente uma leitura do real que nos cerca, a obra artística é o próprio real em si. Porque é também manifestação da realidade, não importando os recursos artísticos que lhe deram molde, cor, som. Oportuna, nessa questão, é a muito conhecida sentença “a vida imita a arte”, aliás, uma via de mão dupla.


Criadora porque dizendo a realidade, propondo modos de percebê-la. Dizendo-a, mas não apenas através da substância da palavra, matéria que logo nos vem à mente quando citamos o verbo dizer, como também através de substâncias outras, resultantes de linguagem, como cores, formas, movimentos e sons; ainda, linguagem é o próprio posicionar-se humano em meio ao real, que também é atividade de criação.


Fundadora, por fim, a obra de arte, porque estabelece o real, não como um estatuto que diga o que ele é, e como funciona, mas como meio de percebê-lo.


Entretanto, quando se falar em meio, tomar o cuidado para que não se considere a Arte, tanto o fazer como a obra, que aliás são muitas vezes sinônimas, como instrumentos; da mesma forma nos suscita essa idéia de instrumentalidade quando se diz que tanto uma quanto a outra funciona. O que se deve ter em mente é que funcionalidade não interessa ao fazer artístico. Pode até ser uma consequência da criação, ou mesmo, quem sabe, uma postura tão íntima que inconsciente. Talvez.


Caso as palavras fundação e criação soem pomposas a você leitor, não as tome assim como adjetivos de intelectualidade, vestindo-lhes de soberba. Fundar e criar é natural a todo e qualquer fazer artístico que se acredite sincero. Não importa o grau de complexidade da Arte, se muito elaborada, até mesmo genial, ou se poucamente, até mesmo preguiçosa. Importa a sinceridade, que pode ser entendida como o realmente-buscar de si próprio, tanto por parte do artista quanto do espectador.


Ou porque dizer a realidade é produzir e exercitar uma linguagem. Tanto dizê-la como fazê-la. Talvez seja redundante dizer assim, pois quando se diz o real, é o momento em que se o produz. Assim, interagir no meio, reconhecendo-lhe as coisas e fenômenos, enfim.


Fazer Arte é com o corpo, assim como também para apreciá-la: é com os cinco sentidos, e outros mais que nossa Ciência ainda não conseguiu mensurar. Mergulhar, imergir nela, entregar-se, integrar-se. Quando vamos ao cinema, por exemplo, somos tomados por uma realidade que se passa diante de nós. Naquele momento, aquilo tudo que se passa na tela, perceba, uma tela! estrutura tão-somente bidimensional, cerca-nos por completo; lá está, fixa e invisível ao fundo da sala de projeção, contudo nos envolvendo, contrariando suas possibilidades físicas, assim como a Arte, possibilitadora de impossibilidades, ou seja, possibilidades múltiplas, infinitas, várias, etc., ao passo que impossibilidades são pechas de um posicionar-se trivial e limitante. Envolve-nos sem sequer ser retirada de lá.


Assim como o cinema, desenrola-se a apresentação dos Arranjos, nessa também criação de realidades. O espectador que se permitir ser tomado, vai experienciar de seu modo as criações que se vão desenrolando perante seu perceber. Os Arranjos solicitam a todo momento a criação por parte do espectador.


Antes de prosseguir, faz-se necessário dizer que experienciar é este. Primeiro, que ele está no oposto do vivenciar. O experienciar carrega o realmente-buscar, de si próprio e da realidade; como também perceber que a busca não traz respostas mas posturas, e que respostas sejam talvez as posturas, ou que sejam talvez também-criações. No pólo oposto, temos o vivenciar que é, na verdade, um provar das coisas ao sabor do ímpeto, pensando-se estar naquele caminho do realmente-buscar(-se), sendo no final um equívoco, quando não conscientemente um somente deixar-se-levar, ambos frutos da dádiva do escolher. Contudo, é de total responsabilidade do indivíduo escolher entre experienciar e vivenciar.


Os Arranjos para Assobio, durante a apresentação, oferecem, perpassando o prisma do escolher do espectador, o experienciar. O grupo oferece tanto a palavra, o ritmo, a nota, quanto o silêncio; oferece tanto o claro da palavra inteligível, como o escuro do intraduzível. O grupo convida, no incomodar(-se) e no descontrair(-se), o espectador a caminhar pelas ruas de uma cidade onírica, mas não deixando de ser real, pois criação. Ao mesmo tempo, o grupo é um cicerone que não faz a menor idéia do que é apresentado no caminho, mas tem idéia de como apresentar, sabe, no seu idioma, como falar-sobre e apontar.


Isso é o que há nos Arranjos para assobio: o oferecer ao espectador o experienciar.