Márcio-André,

Gustavo lhe escreve.
Olá.

Você me pediu para lhe escrever um artigo sobre a apresentação do Arranjos, apresentado pelo grupo Confraria. Entendo um artigo, ou um ensaio, como algo metodologicamente organizado, e, por isso, lhe disse que não escreveria algo assim, mas lhe disse que escreveria algo, e lhe escrevo.

Não posso dizer que este texto será algo finamente elaborado, mas posso dizer que, minimamente, sim, e que é resultado de impressão que tive, de segmentos do arranjo.

Nesta primeira... carta, escreverei sobre a apresentação do poema da harpa. Se não estou enganado, trata-se do Drumming Guesa. (Deduzi isso ao olhar o programa da apresentação, e fazendo um exercício – não exaustivo, porém fácil – de memória, e, ao pensar tagarelando comigo mesmo a respeito, deduzi que já estava suficientemente elaborado para me fazer tentar escrever alguma coisa. Então aqui vai.)

PENSAMENTOS SOBRE PERCUSSÃO

Cheguei a dizer-lhe que aquela apresentação, que aquela interpretação, em particular, me chamara a atenção devido a um caráter ambíguo do seu trabalho com a percussão, uma vez que, em outras interpretações da apresentação do Arranjos, a percussão se faz presente, porém, a meu ver, de modo mais evidentemente “cruamente oriental” do que nesta peça, em particular.

Espero que você, ainda que não concorde, entenda que, do mesmo modo que o Arranjos não é coisa comum, mas coisa nova, assim também as observações e análises de tal manifestação de – arte... de poesia, melhor dizendo, serão ensaios, experimentos de exposição de impressões que o “analista” (ou o crítico) não sabe como fazer, mas entende que pode fazer, que deve fazer, que é um dever para com a humanidade fazer...

De modo que, uma vez que isto não é um ensaio com preocupações metodológicas, devo dizer: gostei! daquela roda de bicicleta de cabeça pra baixo, não apenas da estética, que seria banal em si só, mas pelo efeito que sua utilização como instrumento musical produz, não somente como instrumento musical, mas como instrumento de reflexão de uma parte considerável da civilização (se é que posso utilizar esse vocábulo), do segmento de mundo em que vivo.

Antes de mais nada, uma aparente roda de bicicleta, fixa, que, portanto, não serve como roda de bicicleta; usada de cabeça para baixo (ou de “perna para cima”...). Embora chamada de “harpa”, pelo artista... poeta (?) que recita seu nome enquanto a... afina (constituindo-se portanto em poeta antigo, pois é, também, músico), é usada como instrumento percussivo, à medida que vai sendo “afinada”. Mas não é, não se trata de um instrumento percussivo comum, mas de percussão “fina”, aguda, diferente de um tambor, mas de fato como diz o... afinador, uma harpa.

Não considero impossível, apesar de não conhecer a técnica do manuseio da harpa tradicional (se é que posso utilizar esse vocábulo...), ou clássica, ou antiga, não considero impossível que se produza ritmo com tal instrumento. Entretanto, a tradição me leva a um efeito mental, quando penso em – quando pensava em “harpa”, que me levava ao submerso borbulho do qual – pelo menos uma parte d’– o Ocidente se sente afogado.

Mesmo que eu tenha mencionado primeiro a face a mim desagradável da harpa antiga, ou do que os modernos fizeram com a pobre harpa, mesmo pensando na harpa antes dos modernos, penso em algumas coisas, mas não em percussão. Definitivamente, a harpa antiga não me remete à percussão!

Considero-me um homem eufórico em minhas análises primárias. Talvez por isso, os homens de ciência gostem tanto de metodologia. A metodologia, teoricamente, os impede (ou deveria impedir) de cometerem erros por passarem juízos errôneos, de opiniões baseadas em suas próprias impressões – às vezes –, talvez , egoístas, coisa com a qual não estou muito preocupado ao redigir este texto. Por isso digo: a harpa de Arranjos salvou a harpa antiga do afogamento.

Ao fazer da harpa instrumento de percussão, Arranjos dá um primeiro passo no sentido de devolver à harpa a lembrança e a capacidade de defesa perante a música moderna de que há, na harpa, a possibilidade da produção de composições rítmicas. De que o piano, talvez, possa virar tambor.

Apolo é um só, e a harpa em sua mão é o som da harmonia; se você tira a harpa da mão de Apolo, uno, e a põe na mão de Hefaísto, que é duo – Hefaísto-Vulcano –, a harpa deixa de ser instrumento de melodia, pois a única coisa que Hefaísto sabe fazer é cuspir fogo, pobre Hefaísto: não, não é ele tão imprestável assim: ele sabe cuspir fogo, mas também sabe dar marteladas. E o martelo, ainda que seja uma vara de metal sobre uma “corda”-vara de metal de uma roda de bicicleta fixa virada em 180 graus, pra ser minimamente científico, o martelo produz percussão.

Não entrarei em detalhes comparativos com outras composições. A apresentação, como um todo, está excelente, pelo seu potencial em produzir novidade. E, o que eu capto como percussão “crua” em outras composições – desculpe – interpretações das composições propostas,, ainda que tenham sido a mim apenas, em memória, atividades percussivas que me remetem diretamente ao oriente, hão de guardar traços que, em minha segmentada capacidade de leitura, eu seria injusto em restringir aqui a algo desprovido de outras inter-textualidades com o próprio ocidente. (Isso pra não falar que a mera percussão oriental crua de uma exposição real de arte percussiva genuinamente oriental, como alguma que já tive o privilégio de assistir, já constitui, em si só, grande prazer à minha apreciação e necessidade de arte “diferente”.)

Ou seja, há muito mais que se falar sobre a apresentação de arranjos, muito mais que se falar sobre a apresentação da harpa-roda-de-bicicleta-fixa-ao-contrário, e, penso, haverá tempo e oportunidade para isso.

Passo, portanto, a um breve comentário sobre o theremin, antes de concluir.

SOBRE O THEREMIN

(Espero que eu consiga ser breve...)

Muito embora você tenha feito o possível para me convencer da possível verdade de que aquele instrumento tenha funcionamento eletrônico que verdadeiramente responde aos movimentos de sua mão, coisa que, possível de se produzir, de se construir e engendrar, se de fato já existe, e foi utilizado na apresentação, deve ser muito divertido de se... utilizar como instrumento musical..., devo admitir perante a opinião pública que, em meu íntimo, de primeiro, duvidei que aquilo fosse algo diferente de uma alusão absurda à possibilidade de existência real de tal instrumento, bem como, depois de ter sido tentado convencer por você de que aquilo realmente responde aos movimentos de sua mão, não estou completamente convencido, mas que me suscita a possibilidade de que tal instrumento deve ser desenvolvido, de que sua técnica aperfeiçoada, no caso de, de fato, ser real, pois se não era verdadeiro, a mera possibilidade de que seja já é brilhante!

(Não se entusiasme demais com minhas euforias, lhe digo uma vez mais.)

E, se o theremin é, de verdade, de verdade, meu riso durante a apresentação se converte em vergonha para mim mesmo, pois ri do absurdo de se imaginar tal instrumento, mas, durante a apresentação, não consegui discernir a verdade naquela apresentação, senão apenas desconfiar de estar julgando a apresentação de modo completamente errôneo, o que me causou grande incômodo.

De modo que, sendo breve, e trazendo, apesar de minha vergonha, o que pensei, depois de considerar a possibilidade de tal instrumento ser realmente um instrumento, e não um objeto inanimado, exponho um parecer a respeito do intrumento.

Do mesmo modo que o... a “harpa” tira a harpa do melódico para o percussivo, figura absurda, assim também o theremin exerce um efeito de transporte do instrumento musical comum de um campo da realidade para outro. Explico. A comparação entre a roda de bicicleta fixa e a harpa é realizada através do poema recitado. Todos os pensamentos de comparação entre aquele intrumento, tão esculturalmente formado, porém, diferente de uma escultura, tão instrumentalmente útil (para produzir som, mesmo que diferente do som de uma harpa comum), e uma harpa, são previamente sugeridas pelo poeta, que nomeia o instrumento como harpa, suscitando meus pensamentos, acima expostos.

O theremin não é previamente comparado – verbalmente – a um violino. O efeito musical, contudo, apesar de muito diferente, é musicalmente, na sua concepção, semelhante. O theremin está para um violino, para um violoncelo, como o ??? (roda de bicicleta fixa ao contrário) está para a harpa.

(Por não ter nome, a harpa, comparada a uma harpa, ficou como harpa... Como o theremin tem nome, não pude, de imediato, relacioná-lo a um violino, embora esse seja um lugar possível dele na orquestra...)

(No meio das cordas?!... Não... No meio das antenas, do mesmo modo como a “harpa” não ficará no meio das cordas antigas, mas no meio dos tambores, talvez...)

Quanto a justificativas a meu ato de vergonha, se Karina não for capaz de propô-las novamente, como fez, enquanto nós dois bavardeávamos, com ela ao lado – com ela ao seu lado, melhor que eu seja claro – a humanidade há de perdoar a primeira impressão do primeiro contato com um instrumento completamente novo do mesmo modo como outros foram, antes de mim, perdoados de atos igualmente indignos.

Concluo. Embora pretenda eu passar essas coisas a limpo, para poder enviar-lhe, por e-mail, lembre-me de entregar-lhe os rascunhos, que hão de interessar-lhe, e minha idéia inicial era entregar-lhe sem passar a limpo, também.

Como um seu amigo. Fim de carta.